terça-feira, 4 de setembro de 2012

Um sonho "doce"


Recife [PE] - Em uma estrada vicinal em Jardim Paulista, bairro de um município da Grande Recife, uma aglomeração inquieta de moradores das redondezas, a maioria de chinelos e alguns com chapéus de palha. O barulho era o de sirenes das viaturas das Polícias Militar e Civil. Tinha chovido na noite anterior, então o terreno que levava aos populares estava mergulhado em uma lama espessa, suja e amarelada, passando por toda uma extensão de dois quilômetros que a chamada Mata do Ronca possuía.

Logo na entrada da estrada, uma Parati no alto de seus 20 anos de idade, abandonada. As rodas levadas, a carcaça removida. Um esqueleto metálico. Cerca de 500 metros à frente, o conhecido círculo que se forma em volta de um cadáver. Pequenas inclinações para frente, silêncio.

No chão, com o rosto estatelado e imerso na sujeira, um homem, com a cabeça estourada e o sangue misturado à lama e água suja. Vestindo vermelho, estava de olhos fechados. Tiros na cabeça e na nuca, execução sumária. Mais alguns passos e as viaturas policiais, piscando em vermelho. Em pé, dois delegados discutiam procedimentos administrativos. Apoiados nos galhos, homens armados e fardados. Polícia Militar de Pernambuco. Ao lado deles, um camburão do Instituto de Medicina Legal (IML), da cor branca, que só ele possuía. O resto era um mar de verde, amarelo e marrom.

"Lá atrás tem outros dois, vai lá ver", disse uma senhora castigada pela idade. Chegando "lá atrás", outro corpo estirado na terra batida, marcado de vermelho puro, prestes a ser colocado no saco dos peritos médicos. Próximo a ele, um Fiat Uno completamente carbonizado, pneus derretidos, barras de ferro retorcidas. "Cadê o outro?", pergunto ao delegado. "Dentro". Me mostrou.

No banco traseiro, um tronco, algo parecido com madeira. Era uma pessoa, ou pelo menos foi o que me disseram. Ali, uma massa disforme carbonizada, estranha. "Um crime de execução sumária", repetia um dos policiais.

O primeiro homem, de 33 anos, era um taxista, amigo das outras duas vítimas, mortas sem chance de defesa. Segundo o delegado, ambos eram ex-presidiários e agora cumpriam regime condicional em Paulista. "Ainda não sabemos as linhas de investigação, mas pelas circunstâncias, tudo indica que assassinaram o taxista por ele estar com os ex-presidiários, um deles morto queimado dentro do veículo. Acredito que acenderam o step com gasolina e queimaram o veículo”, palpita o guarda. “Talvez eles tenham alguma ligação com algum crime praticado recentemente ou rixa, o que deve ter motivado a brutalidade dessas ações.”

Enquanto explicava o caso, os corpos foram parar dentro dos sacos do IML, pessoas em volta olhando sem muita reação, como quem está acostumado a tal tipo de crime.

"Me assustar, por que? Ninguém faz nada por aqui, onde eu moro. Não dou tanta atenção. Só fico bem porque não foi nenhum dos meus filhos ou conhecidos", contou uma senhora. Uma outra, com medo de represálias, limitou-se a um murmurante "a vida continua, né?" O rosto estava coberto por rugas e um chapéu gasto pelo tempo. Corpos recolhidos, o carro do IML deu partida, enquanto começou a cair a chuva do dia anterior.

Os pessoal que ali tinha se juntado começou a correr de volta para sabe-se lá de onde vieram. Com medo de um atoleiro, saímos dali até dar nas margens da BR-101. Tocava Molejo na rádio FM e um menino olhava para o fotógrafo que me acompanhava e pedia uma foto, sorrindo. Vestia uma camisa desbotada do Sport Clube do Recife, estava descalço e parecia não se importar muito com isso.

_realidade amarga
Nos arredores do local dos assassinatos, uma pracinha onde outros meninos jogavam futebol – na chuva – e alguns taxistas conversavam em um ponto, ao lado do terminal de ônibus da localidade conhecida como Jardim Paulista Baixo. Depois de algumas perguntas e entrevistas, me indicam a casa de um senhor, ali perto, ao lado do bar com o irônico nome de “Sonho Doce”.

Era o pai de Vinicius, um dos rapazes mortos no crime. Na frente da casa, alguns carros de imprensa e populares rodeando o local, como que em frenesi. Os muros, que já foram brancos há uns cinco [cinco?], dez anos, agora eram cinza escuro. Na sala da casa, um senhor gordo, trajando camisa branca e óculos de grau no rosto. Olhava para baixo enquanto era bombardeado pelas perguntas dos repórteres. “Ele estava metido com drogas?”; “Quanto tempo ficou preso?!”; “Qual a relação dele com os outros dois?”.

Fitava o chão, a mulher do lado, também sem muita expressão. Nenhum dos dois chorava, apenas estavam ali, estáticos. Alguém perguntou como ele se sentia. Dançando no Hopi Hari certamente que não, mas fizeram a pergunta, de qualquer forma. “Você vai trazer meu filho de volta? Que te importa o que eu estou sentindo?”, respondeu, com repreensão no olhar. Não olhava para nenhum dos jornalistas ou para qualquer pessoa que estivesse naquela casa. Simplesmente ficava sentado no sofá, como que pensando.

Eis que então a casa esvaziou e ele ficou lá, paradinho. Do lado de fora, no bairro de Jardim Paulista, onde o sofrimento é interpretado sob a forma de um silêncio sepulcral, os garotos continuavam jogando futebol. O Sonho Doce se resume ao bar.

Ainda que a violência estivesse ali escancarada, brutalizada nas ruas de lama daquele lugarejo, senhoras carregavam sacolas com tomates e repolhos. “Ô de casa!”, dizia o entregador de água, por ali. Ali do lado dos três fuzilados em uma mata vicinal.

Texto que, escrito em 2007, só foi achado hoje, depois de mais de cinco anos de procura. Já tinha desistido dele quando, do nada, reapareceu. Engraçado como as coisas voltam.

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Ceci est l'histoire d'un homme marqué par une image d'enfance.


Une fois sur la grande jetée d'Orly, dans ce chaud dimanche d'avane guerre où il allait pouvoir demeurer, il pensa avec un peu de vertige que l'enfant qu'il avait été devait se trouver là aussi, à regarder les avions. Mais il chercha d'abord le visage d'une femme, au bout de la jetée. Il courut vers elle. Et lorsqu'il reconnut l'homme qui 'avaitl'l suivi depuis le camp souterrain, il comprit qu'on ne s'évadait pas du Temps et que cet instant qu'il lui avait été donneé de voir enfant, et qui n'avait pas cessé de l'obséder, c'était celui de sa propre mort.

(29/7/1921 - 29/7/2012)
r.i.p.

sábado, 30 de junho de 2012

welcome to 1993.

quarta-feira, 6 de junho de 2012

"Mulher minha tem que trabalhar!"


Gritou, com uma ferocidade tremenda:

“Mulher minha tem que trabalhar!”. E emendou: “Mulher que fica em casa esperando o marido é o fim da picada, entendeu? É o fim da picada! Simplesmente não dá!”. 

Moreira repetia o mote com uma certa constância, sempre que se dava conta que a esposa, com quem havia se casado recentemente, não conseguia um emprego. Moreira, artista plástico, se dizia um homem moderno, contemporâneo, à frente do seu tempo. A era do machismo, para ele, tinha que ser sepultada. Mulher tinha que trabalhar, tinha que ajudar a trazer dinheiro para dentro de casa. 

Todas as vezes, a mulher ouvia aquilo, pequena, sem reação. Procurava trabalho há dois anos e sempre ouvia nãos. As portas se fechavam em sua cara com ferocidade só parecida com os gritos do marido. Era uma mulher jovem, nos seus vinte, quase-trinta. Bonita. Melhor, linda. Chamava a atenção, fazia os homens entortarem o pescoço. Ouvia tantas cantadas que sentia certo asco da virilidade masculina. Se interessava por Moreira, por sua sensibilidade, a sensibilidade de um artista plástico. 

O casamento
Casaram-se há dois anos, com promessas de felicidade eterna. Moreira era o homem cobiçado dos sonhos de Catarina, um homem atraente, sensível: um bom partido. Resolveram marcar o casamento logo. Mal se passaram meses de namoro e a roupa branca já tomou conta do corpo curvilíneo de Catarina. Disseram o sim, igreja lotada, amigos e familiares sorridentes e as luzes nos olhos de Catarina eram a metonímia da felicidade. Nada poderia dar errado.

Deu.

Depois da Lua de Mel, mudaram-se para o novo apartamento – com porteiro, Moreira fazia questão -, e passaram a viver o casamento. Moreira, artista plástico, pintava mulheres, homens, paisagens. Mas preferia pintar mulheres. Jovens, de preferência. Traria mais visibilidade a seu trabalho, dizia. As obras de Moreira, em sua maioria, eram essas jovens, mulheres, despidas, deitadas em seu ateliê como madonas renascentistas. Ele gostava daquilo.

Catarina não gostava tanto, mas via com indiferença. Conheceu o marido daquele jeito, não poderia mudá-lo agora. E nem queria. Diversas vezes chegava em casa e se deparava com Moreira pintando alguma jovem estudante. Assentia com a cabeça, recebia um beijo morno, na testa, e saía sempre em silêncio. Como dizia sua mãe, era um esposa exemplar. Respeitava o trabalho do marido, cumpria seu papel de esposa. Na realidade, admirava o marido profundamente, admirava aquelas mulheres jovens e espetaculares que ele trazia para seu apartamento e sentia uma certa inveja daqueles corpos recém esculpidos. 

Mas respeitava o marido. Respeitava tanto que, mesmo que desconfiasse que a traição era a terceira moradora de sua casa, não se deixava contaminar pelas suspeitas. Deixava acontecer. Ou ao menos achava tudo isso. Não iria estragar o casamento recém realizado por desconfianças banais. Catarina era uma esposa padrão, conforme repetia a sua mãe. 

Seis meses de casados se passaram, os quadros vinham, as jovens deitavam-se e os corpos se desembrulhavam. Catarina via aquela rotina com certa misoginia, fingia não se perturbar. Com seus quase trinta, era uma mulher absolutamente qualificada, tinha mestrado e doutorado e dezenas de artigos publicados. Era convidada com certa frequência para debates acadêmicos e contribuía para o corpo de professores de uma universidade como professora assistente. Mas sem receber. Não recebia um centavo, a universidade não tinha fundos. Ela entendia. 

E ia levando. Moreira, com o tempo, foi se tornando cada vez mais distante. Trancava-se no ateliê com as jovens. Fechava a porta. O beijo na testa, morno, esfriou de vez, deixou de existir. Catarina chegava em casa e via um pedaço de madeira pintada, trancada, inerte. Dentro, alguns sorrisos. Ele estava trabalhando, era um artista. Mas o artista, assim como o beijo na testa, tornou-se ausente. Com frequência, Catarina, cambaleante, desistia de esperar pelo marido e se entregava às cobertas. Ele vinha horas mais tarde, podre de cigarro, álcool e bafo. Deitava-se e dormia. Ainda acordada na cama, ela via toda a sequência, mas fingia dormir para não contrariar o marido. Não se dignava a tentar alguma coisa.

O trabalho
Tornou-se rotina. Mulheres, jovens, bonitas, pequenas como ela. De todos os tipos. Vinham, trancavam-se, ela dormia sozinha. Com um corpo natimorto ao seu lado, mas fundamentalmente sozinha. Não havia interação.

Eis que um dia, na mesa do café, Moreira solta o brado: “mulher minha tem que trabalhar!”. Catarina, tomada por um susto súbito, argumentou que trabalhava. Era professora, tinha mestrado e doutorado. “Trabalhar de verdade!”, ele dizia, numa ignorância tribal. Aquilo deprimia Catarina, mas ela ainda não sabia se o deprimente era a colocação do marido ou o caminho que escolheu para a sua vida. 

Com o tempo, a frase também passou a fazer parte da rotina do casal, junto com as mulheres e o quarto trancado. Catarina passou a procurar emprego. Saía de casa bem cedo e ia, durante horas, à procura de uma ocupação. O não salário da universidade tornava-a em desacordo com os sonhos do marido. Talvez por isso ele a trocasse – será que trocava? – por suas vivas obras de arte. Catarina sentia-se incomparável a elas.

Batia em várias portas, seguia classificados dos jornais, procurava na internet, com amigos. “Você é qualificada demais”, dizia um. “Não temos vagas no momento”. “Você é bonita demais”. As respostas eram múltiplas, mas todas no mesmo tom: o do não. Catarina tentava não se acostumar com aquilo e seguir em frente, mas o não era a sua realidade. O do marido, o do emprego, o do dinheiro. Se acostumou. Todo mundo se acostuma.

Mulher minha tem que trabalhar
Nos dias que saía de casa, Catarina percebia os olhos masculinos. Todos se voltavam para ela. Isso causava certo desconforto, porque Catarina, uma esposa padrão, conforme sua mãe, tinha olhos somente para o marido. 

No segundo ano de casamento, Moreira passou a realizar seus trabalhos em um escritório longe do apartamento. Passou a dormir várias noites no escritório. “Para acelerar os trabalhos”, dizia. A solidão de Catarina tornou-se insuportável. Acordava sozinha, dormia sozinha. Passava o restante do tempo sufocada pela cidade, engolida pela fúria da cidade, que a impedia de trabalhar. Era qualificada demais. De corpo e de espírito.

Das muitas vezes que tentava um emprego, mostrava seu currículo, sorria de forma angustiante para o empregador e era despida completamente pelos olhos alheios. A humilhação repetia-se com frequência. O corpo de Catarina era investigado a cada milímetro, devassado por olhares inquietos e pupilas dilatadas de palpitação. Todas as vezes que saia para a cidade, era subjulgada por ela. O mestrado e o doutorado de nada valiam para alguém com um corpo daqueles. Era inútil discutir. Na verdade, preferiam Catarina de boca fechada e o mais quieta possível. Uma escultura curvilínea, uma obra de arte que seu marido não enxergava. Serviria para ser admirada e nada mais.

O trabalho
Uma manhã, na multidão inumana do metrô, juntamente com um exército de sonâmbulos a caminho de suas rotinas, ela foi abordada por uma mulher. Mais velha do que ela, mais feia do que ela, acabada. Olhou de forma esquisita para aquela pessoa e recebeu um cartão. Era um cartão de uma “agente de modelos”. “Você é muito bonita, pense na proposta e me ligue”, disse a mulher. Catarina desconversou, mas gostou particularmente do “bonita”. Não ouvia aquilo há anos. Ouvia as vulgaridades que surgiam do asfalto, ouvia os silêncios de Moreira, mas não era elogiada. Tinha se acostumado a não ser elogiada.

Em casa resolveu ler novamente o cartão. Procurou o marido para contar a façanha. Ao bater na porta do ateliê, ouviu um “estou trabalhando!”, o que a fez lembrar, automaticamente, que ela não trabalhava. E que mulher precisava trabalhar. Ligou para o telefone no cartão, conversou com a mulher do metrô, ouviu com atenção as qualidades necessárias para o trabalho. Achava-se incapaz, mas ouviu da agente que tinha mais do que o necessário. Sentiu-se confiante, uma sensação um tanto estranha, alienígena. Ouvindo isso, prontificou-se a ir para o local combinado, no dia seguinte, à noite. 

À noite
Depois de sair do escritório, como de costume, Moreira parou no bar da esquina com uns amigos. Após vários chopes, entrou no estabelecimento ao lado. Aquele ritual era frequente, repetia-se, normalmente, às terças-feiras. Não era dia de jogo, ficava mais fácil. Ele e os amigos já eram conhecidos, bem tratados e ganhavam as mais distintas regalias.

Sentaram-se nas decrépitas poltronas de couro, uísques sem gelo nos copos, olhos vidrados no palco. Com o apagar de luzes e o início de uma música luxuriosa, subiu ao palco uma figura espetacular, acachapante. Uma mulher impressionantemente linda, corpo hipnotizante, olhar de causar desconforto. A figura subiu no círculo de madeira com pequeninas peças de couro e salto-alto. Aos poucos, foi tirando as peças de roupa, uma de cada vez, o mais devagar e torturantemente possível. Os homens, a esmagadora maioria naquele recinto, viravam animais brutos e torpes, bichos encantados. 

Por estar longe do palco, Moreira não conseguia visualizar com cuidado o rosto daquela figura que, de tão impactante, acreditava ser mística. Após estar quase completamente desnuda, a mulher desceu do palco e caminhou pelo meio das poltronas e sofás do estabelecimento. Recebia urros, elogios dos mais diversos, gritos apaixonadamente pecaminosos. Ao chegar perto do grupo de Moreira, fitou o marido com violência.
Catarina, acordada de um estado de transe, olhava-o com uma força tremenda, demolindo o marido por dentro. Moreira, impaciente, vislumbrava uma nova mulher, uma deusa transformada e renascida. Ao olhar com afinco para a mulher, em completa e irrestrita admiração, Moreira tentava tocá-la com os dedos, suor escorrendo pela testa, uma vontade quase incontrolável de possuí-la. As jovens de sua arte eram incomparáveis àquele turbilhão em movimento. 

Tentou tocá-la, balbuciar algo, mas Catarina tapou-lhe a boca e retornou ao palco, fazendo uma espécie de show particular para cada um dos presentes naquele espetáculo quimérico. Para cada um deles. Após o show, maravilhado, Moreira esperou a esposa na porta do local. Esperou por quase duas horas. A esposa não apareceu, ele resolveu ir para casa.

Perturbado com aquela imagem destruidoramente poderosa, deitou na cama do casal e esperou a chegada da mulher, o que só aconteceu muitas horas depois. Catarina entrou no quarto e, imediatamente, Moreira fez-lhe juras de compromisso. Ela deu de ombros, foi ao chuveiro e deitou-se. Não lhe falou uma mísera sílaba. Adormeceu. O marido não teve a audácia de tocá-la. 

No dia seguinte, Moreira esperou-a na cozinha, com um sorriso incomum, um carinho esquecido. Convidou-a para jantar. 

“Não posso, tenho que trabalhar”, foi a resposta dela.

Catarina havia se tornado uma esposa padrão.

domingo, 27 de maio de 2012



SEQÜÊNCIA  1.
EXT. PISCINA DE HOTEL – NOITE

Pés engelhados em superclose. É possível ver as ranhuras dos dois pés, muito brancos, que bóiam dentro de uma piscina azul. Corta. Câmera em médio plano de um homem boiando, de bruços, dentro da piscina. De shorts igualmente azuis como a piscina. Ele não está respirando. A câmera mostra uma situação de quase-morte. O personagem está boiando, sem demonstrar qualquer reação. Está de noite e apenas uma fraca lâmpada ilumina o ambiente. Numa cadeira à beira da piscina, um par de sandálias, uma toalha dobrada, um cartão e um tocador de mp3.

SEQÜÊNCIA  2.
EXT. AVENIDA – NOITE

Na avenida ao lado do edifício onde se encontra a piscina, não há nenhum carro ou pedestre. O vento balança alguns coqueiros da localidade e há poucas nuvens no céu.

SEQÜÊNCIA  3.
EXT. PISCINA DE HOTEL – NOITE
 
Close na lateral do rosto da personagem, imerso na água. A situação, estática, continua por mais alguns instantes, até que surgem algumas poucas borbulhas dentro d’água. Depois dessas primeiras, que surgem vagarosamente, outras começam a aparecer, com mais violência e velocidade. O personagem começa a se debater dentro da piscina, sem ainda levantar a cabeça de dentro da água. A quantidade de bolhas aumenta progressiva e assustadoramente. Ele começa a bater com os braços na água, em profunda agressividade, até que levanta a cabeça e respira desesperadamente com a boca, fazendo um barulho de quem estava à beira de um afogamento e encontrou oxigênio no último instante.  
A câmera foca o rosto do homem, de aparência jovem, cabelos escuros jogados sobre o rosto, que puxa o ar com força, enchendo os pulmões, até começar a respirar com normalidade. Apoiando os dois punhos na borda da piscina, se ergue da água. Num enfoque minimalista, planos dos dois braços do personagem, das suas costas e dos shorts azul marinho.
O personagem se enxuga com a toalha e senta na cadeira ao lado da mesa da piscina. Abre uma carteira de cigarros e começa a fumar, olhando para a água. Passa as mãos nos cabelos, olha o relógio, enxuga o visor, olha novamente, conferindo a hora. Permanece sentado, tragando a fumaça, com o olhar vidrado na água, até que coloca os fones do aparelho de mp3 nos ouvidos e levanta da cadeira, pegando o cartão e calçando as sandálias.


SEQÜÊNCIA  4.
INT. SAGUÃO DO HOTEL – NOITE
(INSERT DE TRILHA)

Ouvindo a música, o personagem caminha, sem camisa, com a toalha jogava sobre os ombros, pelo saguão do hotel. As sandálias fazem barulho característico de pés encharcados. Um hóspede passa por ele e o cumprimenta com a cabeça. Ele finge um sorriso constrangido em retribuição e chega ao elevador.

SEQÜÊNCIA  5.
INT. ELEVADOR/CORREDOR DO ANDAR – NOITE
(AINDA AO SOM DE “ISOLATION”, DO JOY DIVISION, QUE SE DESFAZ NA PERGUNTA DA MULHER)

Entra. Aperta seu andar e olha novamente o relógio. Ao sair do elevador, se encaminha até a porta de sua suíte e a abre com o cartão. Uma MULHER, do quarto vizinho, aparece no corredor. Bonita e arrumada, olha para ele com ternura. Ela é mais velha do que ele.

MULHER
Oi. Está tudo bem?

      PERSONAGEM
(evasivo)
Sim, claro.

     MULHER
Está morando por aqui ou só passando uns dias?

     PERSONAGEM
Alguns dias, acho.

     MULHER
Ah, aqui é ótimo. Você vai gostar, já estava aproveitando a piscina, veja só. Se precisar de alguma coisa, estou aqui. Seja bem-vindo.

    PERSONAGEM
Obrigado.

Com essa resposta, entra na suíte. A mulher olha para a porta que acabou de se fechar por uns instantes, como se estivesse entendendo a personalidade daquela pessoa. Depois, se encaminha para o elevador.


SEQÜÊNCIA  6.
INT. SUITE – NOITE

O personagem acende o interruptor e entra no banheiro      

domingo, 20 de maio de 2012

"the past, he reflected, had not merely been altered, it had been actually destroyed. for how could you establish even the most obvious fact when there existed no record outside your own memory? (...) everything melted into mist."