terça-feira, 3 de janeiro de 2012

28 minutos

A relação que desenvolvi com a música beira o desaconselhável. Passo horas pesquisando, escutando e, até recentemente, escrevendo sobre música. Poucas coisas me deixam mais realizado que ver um bom show, viajar para assistir a um festival, conversar sobre música com amigos e desconhecidos. Cansei de ir sozinho para shows. E continuo indo. Gosto de ouvir discos antes de dormir, quando ando de bicicleta na praia, no trânsito. Gosto de ouvir discos com fone de ouvido para poder ouvir os graves com mais atenção. Catalogo discos, dou notas, classifico todos os álbuns que ouço por gênero e ano. Faço listas de melhores shows, melhores discos, melhores capas, melhores discos de 1968, melhores discos de 1997. Tento compartimentar um prazer tão disperso, que a grande maioria das pessoas encara como mero passatempo, como atividade acessório para outra. É um processo interminável de conhecimento de discos, bandas, gêneros. Praticamente toda semana deparo-me com um disco incrível ou uma banda desconhecida que vale a pena; essas pequenas descobertas valem.

Não se para mais para ouvir um disco. Aliás, nem mesmo se usa mais a palavra disco. Virou sinônimo de passado. Passado como o ato de parar um pouco e colocar a bolacha para girar, realmente fazer valer aquele momento. Eu escrevo disco. Lembra a fase dos grandes álbuns conceituais, de blocos de música casualmente separados por faixas ou lados, de minutos de gravações com sequência temática que os tornam únicos. Curiosamente, nunca vivi essa fase. Lembro dos vinis dos meus pais, lembro de vinis empoeirados do Roberto Carlos e do Nazareth na casa dos meus avós, mas nunca vivenciei o ato de viver o vinil. Apesar dessa incongruência, levada a cabo por questões cronológicas, sinto que compartilho desse sentimento que não vivi. Desse sentimento passado de dar devida atenção a uma obra. Trabalho árduo esse, que pode levar tempo, ao contrário da fugacidade dos .mp3, .flac, .wav etc.

Achar certos discos dá trabalho. Vários são difíceis de encontrar em uma qualidade decente, mesmo em tempos de internet. Outros simplesmente não estão aí para serem baixados ou coisa que o valha. Estão esperando uma boa alma disponibilizá-los. O meu processo de busca por música é muito solitário. Quando se tratam de lançamentos do ano corrente, tento ouvir tudo o que aparece, mas, claro, com mais atenção aos gêneros que me atraem mais. É absolutamente impossível ouvir tudo. Quanto aos anos anteriores, normalmente busco referências aleatórias para novos discos e, na maioria das vezes, vou no feeling atrás de um álbum ou artista. Diversas vezes isso funcionou e eu repassei adiante a dica.

Gosto de poder indicar um disco ou banda para alguém, ou gravar um disco com faixas aleatórias que representem um pouco da pessoa. Ou simplesmente com músicas que eu creio que ela vá gostar. É a velha sensação de compartilhar conhecimento, mesmo que a reação seja negativa. Receber indicações, ato contrário, também é processo engrandecedor. Pela minha busca incessante por música, normalmente recebo menos dicas. O processo fica, em grande medida, solitário. Mas há certos discos que vêm de modo inesperado. Muitos são redescobertos por intermédio de outras pessoas. Isso marca, quando se tratam de discos verdadeiramente importantes. Encaro como um encontro de sensibilidades.

Há discos que não são fáceis, que requerem certo amadurecimento e, arrisco dizer, acostumar os ouvidos para serem realmente compreendidos. Outros eu simplesmente ouço no turbilhão de álbuns que me deparo semanalmente e não dou a devida atenção. Há outros que acabam compartimentados em pastas e tocadores de música e só aparecem quando o shuffle resolve colaborar. Além disso, há aqueles que não podem ser ouvidos devidamente, pela falta de tempo, e são atropelados por outros afazeres; são ouvidos como acessórios de outras atividades. Perdem força não por culpa deles, mas por culpa exclusiva minha. Assim, vários acabam esquecidos em um limbo de notas, listas e classificações em gêneros, sem serem compreendidos como deveriam.

Nesse processo de redescobertas trazidas por outros, veio o Pink Moon (1972). Há pelo menos sete anos já tinha ouvido o disco diversas vezes, mas por pura falta de maturidade, desinteresse ou incapacidade, não dei a devida atenção à obra 28 minutos de Nick Drake. Talvez por ser um disco com voz, violão, piano (em apenas uma faixa) e uma carga emocional gigantesca. Gravado em somente duas noites, é um trabalho carregado de paradoxos. Cru, não deixa de ser um retrato de um artista depressivo e melancólico. Talvez por isso bonito. E direto. Há certos discos que, creio, não podem ser acessados sozinho, você precisa de alguém que lhe dê a mão e mostre o verdadeiro valor de uma obra de arte. Que abra seus olhos para algo que você negligenciou, que mostre, às vezes de modo indireto, o incomensurável poder de apenas 28 minutos de voz, acordes e um mísero piano. Lembro de grandes discos da minha vida que foram indicações de outras pessoas. Discos esses que marcaram e ainda marcam etapas, que não podem ser dissociados do meu amadurecimento e descoberta do mundo.

Lembro de cada um deles e dos momentos em que foram indicados. E de todas essas pessoas. E também lembro os discos que indiquei e que mudaram a vida de outros. A memória do sujeito da indicação e da própria confunde-se, embaralha-se, fixa. Atribui-se sentido adicional ao trabalho artístico.

Diversos discos que marcaram a minha vida estão ligados a momentos específicos, a contextos mutáveis, a condições climáticas características, a pessoas específicas. O processo cresce ao ser compartilhado.

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