Quando recebi a notícia de que Arthur nasceu, estava em casa. Meus filhos não. Muito menos meu marido. Além de mim, só a Sandra. Ela estava comigo há algumas semanas, substituindo a mãe do Arthur. Tinha por volta de seus 40 anos, mas confesso que nunca tive coragem de perguntar a idade. Parecia uma boa pessoa. Algo me diz que ela tinha TOC de limpeza, porque não deixava o balcão da cozinha sujo um minuto. Qualquer copo deixado por lá era lavado imediatamente. Isso era bom por um lado, mas, por outro, atrapalhava o rendimento dela nas outras tarefas. Ela não sabia passar roupa, por exemplo. Ficavam amarrotadas. Camisa social, principalmente. Mas era uma boa pessoa. Não costumo falhar nisso e, depois de algumas semanas, ela tinha ganhado a minha confiança. Foi ela quem me contou que o Arthur nasceu. “Há sete horas”, ela disse. Fiquei surpresa, já que o parto estava marcado só para dali a 10 dias. Soube que mãe e bebê estavam bem, mas que havia sido cesárea e não parto normal, como a mãe queria. “Arthur estava dormindo e os médicos acharam melhor fazer cesárea”. Achei estranho. Descobri o horário de visitação e resolvi ver aquela nova criatura. “É só entre 16h e 16h30”, Sandra me alertou. Daria tempo. Deixei a casa com ela e fui até a maternidade. Era uma maternidade de referência. Pública, claro. Mas das melhores. E para partos de risco, como o do Arthur. No ano passado, a mãe dele fez um aborto nessa mesma maternidade. De uma menininha. Também aconteceu comigo. Perdi Juliana quando ela estava com quatro meses, mas evito pensar nisso.
Ao entrar na maternidade, vi uma fila enorme de pessoas para a visitação. Me senti deslocada. Eu era a única pessoa branca ali. Não é preconceito, é um fato. Algumas outras mulheres me olhavam de forma estranha, como que questionando o que eu estava fazendo ali. Me senti despida enquanto enfrentava a fila. Ela terminava em um enorme balcão, em que mais uma mulher fazia uma espécie de triagem. Percebi que tratava de forma ríspida as visitantes. Aquilo me revoltou um pouco. Na minha vez, ela fez diferente. Me abriu um sorriso sem graça e perguntou quem eu iria visitar. “Sandra”, respondi. Depois, disse o número do quarto. Ela conferiu os dados em uma prancheta e novamente abriu um sorriso, desta vez gentil. “Por ali, senhora. Mas o horário de visitação só vai até as 16h30”. Eram 16h08. Fiquei na dúvida se deveria subir, realmente. A atendente me informou que cada mãe só poderia receber duas pessoas de cada vez e que o único horário de visitação era aquele. Apenas meia hora diária de contato com o mundo exterior. Lembrei da minha primeira gravidez e de como meu marido ficou junto do meu filho por todo o tempo. Aquilo contribuiu para o meu choque. Resolvi que ficaria por só alguns minutos.
Subi o elevador, abarrotado de visitantes. De novo, me senti intrusa. Senti tristeza. Não costumo ter esses acessos de realidade escancaradas em minha cara, a não ser pela televisão, e não sabia como lidar. As outras pessoas esperavam que a porta se abrisse, como que em estado de torpor. Sexto andar. O meu. O elevador desaguava em um corredor imenso, com vários quartos coletivos. Contei as camas: cada quarto tinha seis camas, como que num alojamento de exército. Em cima de cada cama, uma mãe e um bebê. Rosas ou azuis. Segui para o quarto indicado e vi Sandra lá dentro. Ninguém mais estava visitando aquele quarto, só eu. Ao entrar, me senti mal novamente. Senti uma espécie de pena e novamente fui tomada por tristeza, por impotência de fazer mais. Ela tomou um susto quando me viu. Estava quietinha na cama, encolhida, com Arthur nos braços. “A senhora veio! Alguém mais está vindo com você?”, perguntou, os olhos acelerados. Respondi que não tinha visto mais ninguém e que ficaria só alguns minutos para não atrapalhar a subida de outras pessoas. Ela pareceu bastante inquieta. Era o retrato daquela sala. Bem cuidada, organizada, mas abandonada. Estava em cima da cama, bebê nos braços, outras cinco mulheres na sala, mas imensamente sozinha. O marido trabalhava como mecânico em uma concessionária da Mercedes e a filha estava na escola, por isso, provavelmente, não estavam ali. Quis abraçar aquela mulher, mas não achei apropriado. Não estava sorrindo, mas transpirava um ar de esperança e espera. Olhei aquela criança, um bebê gordinho, pequenino, lindo. Grandes olhinhos negros. Perguntei o porquê da cesárea. Sandra me contou que a bolsa tinha estourado na noite anterior e que ela foi às pressa ao hospital. Os médicos avaliaram o quadro e viram que Arthur não se mexia. Fizeram um eletro e ele continuava parado, com a respiração muito fraca. Não teria forças para um parto normal. Não queria sair daquela zona de conforto uterina e ser despejado na frieza. Aquele seria o segundo aborto em dois anos, mais um na vida daquela mulher. Felizmente não foi. Optaram pela cesárea e, agora, aquele ser estava ali na minha frente, mexendo a boca e os bracinhos. Não fiz que iria pegá-lo nos braços e ela tampouco fez a oferta. As outras mulheres do quarto me fitavam com interesse. Percebi que a cama de Sandra ficava ao lado da janela e que ela tinha colocado uma toalha estendida. Imaginei a quantidade de sol que deveria bater incansavelmente naquela cama. E lembrei da solidão que aquela mulher deveria estar sentindo. Vi uma outra mãe dando banho na cria. Não havia enfermeiras. Às 16h14 me despedi de Sandra. Dei-lhe um beijo no rosto, olhei novamente para Arthur e saí. Não queria impedir que outra visita chegasse. Minhas entranhas apertavam-se.
Quando desci, fui até o balcão de atendimento e perguntei se tinha mais alguém para visitar mãe e bebê. “Não”. Pensei em subir de novo, mas não queria atrapalhar uma possível chegada do marido. Não seria justo. Na saída da maternidade, a sensação de estranhamento continuava. Não me senti mal pelas coisas que tinha conquistado até aquele momento, mas pelo que aquelas outras mulheres não conseguiram. Ou conseguiram pela metade e completamente sozinhas. Pensei no futuro de Arthur e nas oportunidades que ele teria. Parece que ele já sabia das dificuldades e tinha escolhido encerrar sua passagem nesse mundo antes mesmo de conhecê-lo. Auto-defesa.
Lembrei de meu aborto e chorei na garagem do prédio. Cheguei em casa, a outra Sandra estava me esperando. A pia estava limpíssima. A casa também. Disse para ela ir, para não pegar trânsito. Ela saiu pela porta. Na segunda-feira estaria novamente comigo.
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