sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Atonal



Escrito em 2010, quando Rubem Fonseca era meu melhor amigo.

Na direção, viu aquele pontinho loiro sentado em um banco, na praça. Pernas de fora, olhos grandes, redondos. Parou o carro lentamente, o pontinho entrou. Tornara-se grande, chamativo, radiante. Tinha 22 anos, os olhos, ainda grandes, verde-limão, um sorriso tímido e desconcertante – um pouco estranho – e os cabelos soltos, batendo no ombro. Lisos. Sentou no banco do carona e lá ficou, muda. Cumprimentaram-se com um beijo no rosto e ele seguiu. Acelerou o carro. Não estava carregado, mas apreensivo. 

Dois seres ali, tão diferentes e tão iguais. Querendo um pouco cada de cada outro. Ela estava visivelmente nervosa, falava rápido, tropeçando as palavras, coçava os olhos com afinco e repetia as frases, frases a esmo, soltas, desconexas. O importante era continuar falando. Ele mal olhava pra ela, não conseguia encará-la. Tampouco sabia como fazê-lo. Focava-se na direção e na cidade que acontecia na frente dele, nas luzes que se moviam e no barulho do caos pouco organizado que acontecia a sua volta. Ele mais ouvia do que falava, preferia entender que voz era aquela dentro do seu universo de metal, que sons eram aqueles ainda indecifráveis. Absolutamente nada do que era falado era importante. O importante era ouvir, discernir o tom de voz suspirante e trôpego que acontecia. Acostumar os ouvidos com uma música que ele nunca tinha ouvido. Como notas de um instrumento estranho que era estapeado pelo músico, cuspindo acordes dissonantes. Ouvia aquilo como se estudasse um novo gênero musical, um aprendizado instantâneo, imediato. Confuso. 

Falaram as maiores banalidades, o carro propositalmente devagar, em marcha baixa. Ouvir era mais importante que falar. Mais do que dirigir. E, principalmente, do que chegar. Ela percebeu a direção lenta. Após cruzarem uma avenida movimentada, chegaram às margens de um lago, onde a cidade parecia preguiçosa, o orvalho brincando nas árvores e gramado. Poucas pessoas nas ruas, um pedaço sonolento da urbe. Fazia frio, mais do que o normal. Dentro do carro o calor imperava. O ar condicionado não tinha sido ligado. Ele esquecera. Suava incessantemente e pouco se importava. Na verdade, não sabia que estava suando. Os sentimentos eram incertos. Ainda não se acostumara com a música feminina que era entoada ao seu lado e não tinha tido contato com aquele cheiro. Achava que queria. Ela não havia feito uma pergunta sequer a ele. Nenhuma. Apenas falava. O importante era continuar falando. 

Depois de mais alguns bons minutos, o carro caminhando deslizante no chão de asfalto, chegaram. Foi parado ali, perto do lago, da água parada e esverdeada daquela poça imensa. Olharam-se pela primeira vez, os olhos encontraram-se. Ela voltou a coçá-los com esmero. Ele fitava-a com curiosidade. Não sabia quem era aquela estranha que falava compulsivamente. Uma longa faixa de jazz desarmônico, agudos imperando sobre os graves. Mas a melodia era, mais do que tudo, suave. Ela tentou tirar o cinto, franziu a sobrancelha, ele sorriu. Olharam para frente. A noite era companhia, reluzia na água, sem fazer alarde. O balé de olhares com frases e voz continuou por mais alguns minutos. Bons minutos. Ele continuava suando, passava a mão na testa para esconder o suor. Fez algumas perguntas, não respondidas completamente. Os sorrisos diminuíram, mas não acabaram. 

Saíram do carro. 

O corpo dela nunca mais foi encontrado.

2 comentários:

Unknown disse...

Me cede 322 caracteres?

Morte e morte severina

A terra seca é um mosaico,
um mosaico monocromático,
Severino.
Mais seco que a terra seca
é o pé de quem a pisa.

É seca porque é vazia,
é vazia porque caatinga.
Cheira à morte que apodrece.
A vida nela evapora,
emigra.

O galho é seco,
o gado ossudo,
profundo de cheio é o bucho
de verme, de fome e de lombriga.

Alice

Felipe disse...

Alice. Depois desse poema, cedo 644 caracteres.

Lindo, lindo. Forte e poético, lembrou meu Pernambuco, um norte de Minas Gerais que eu nunca conheci e mais uns pedaços dessa terra seca pisadas por pés mais secos ainda.

Muito bonito. :}