Escrito em 2010, quando Rubem Fonseca era meu melhor amigo.
Na direção, viu aquele pontinho loiro sentado em um banco,
na praça. Pernas de fora, olhos grandes, redondos. Parou o carro lentamente, o
pontinho entrou. Tornara-se grande, chamativo, radiante. Tinha 22 anos, os
olhos, ainda grandes, verde-limão, um sorriso tímido e desconcertante – um pouco
estranho – e os cabelos soltos, batendo no ombro. Lisos. Sentou no banco do
carona e lá ficou, muda. Cumprimentaram-se com um beijo no rosto e ele seguiu. Acelerou
o carro. Não estava carregado, mas apreensivo.
Dois seres ali, tão diferentes e
tão iguais. Querendo um pouco cada de cada outro. Ela estava visivelmente
nervosa, falava rápido, tropeçando as palavras, coçava os olhos com afinco e
repetia as frases, frases a esmo, soltas, desconexas. O importante era
continuar falando. Ele mal olhava pra ela, não conseguia encará-la. Tampouco sabia
como fazê-lo. Focava-se na direção e na cidade que acontecia na frente dele,
nas luzes que se moviam e no barulho do caos pouco organizado que acontecia a
sua volta. Ele mais ouvia do que falava, preferia entender que voz era aquela
dentro do seu universo de metal, que sons eram aqueles ainda indecifráveis. Absolutamente
nada do que era falado era importante. O importante era ouvir, discernir o tom
de voz suspirante e trôpego que acontecia. Acostumar os ouvidos com uma música
que ele nunca tinha ouvido. Como notas de um instrumento estranho que era estapeado
pelo músico, cuspindo acordes dissonantes. Ouvia aquilo como se estudasse um
novo gênero musical, um aprendizado instantâneo, imediato. Confuso.
Falaram as
maiores banalidades, o carro propositalmente devagar, em marcha baixa. Ouvir era
mais importante que falar. Mais do que dirigir. E, principalmente, do que
chegar. Ela percebeu a direção lenta. Após cruzarem uma avenida movimentada,
chegaram às margens de um lago, onde a cidade parecia preguiçosa, o orvalho
brincando nas árvores e gramado. Poucas pessoas nas ruas, um pedaço sonolento
da urbe. Fazia frio, mais do que o normal. Dentro do carro o calor imperava. O ar
condicionado não tinha sido ligado. Ele esquecera. Suava incessantemente e
pouco se importava. Na verdade, não sabia que estava suando. Os sentimentos
eram incertos. Ainda não se acostumara com a música feminina que era entoada ao
seu lado e não tinha tido contato com aquele cheiro. Achava que queria. Ela não
havia feito uma pergunta sequer a ele. Nenhuma. Apenas falava. O importante era
continuar falando.
Depois de mais alguns bons minutos, o carro caminhando
deslizante no chão de asfalto, chegaram. Foi parado ali, perto do lago, da água
parada e esverdeada daquela poça imensa. Olharam-se pela primeira vez, os olhos
encontraram-se. Ela voltou a coçá-los com esmero. Ele fitava-a com curiosidade.
Não sabia quem era aquela estranha que falava compulsivamente. Uma longa faixa
de jazz desarmônico, agudos imperando sobre os graves. Mas a melodia era, mais
do que tudo, suave. Ela tentou tirar o cinto, franziu a sobrancelha, ele
sorriu. Olharam para frente. A noite era companhia, reluzia na água, sem fazer
alarde. O balé de olhares com frases e voz continuou por mais alguns minutos. Bons
minutos. Ele continuava suando, passava a mão na testa para esconder o suor. Fez
algumas perguntas, não respondidas completamente. Os sorrisos diminuíram, mas
não acabaram.
Saíram do carro.
O corpo dela nunca mais foi encontrado.
2 comentários:
Me cede 322 caracteres?
Morte e morte severina
A terra seca é um mosaico,
um mosaico monocromático,
Severino.
Mais seco que a terra seca
é o pé de quem a pisa.
É seca porque é vazia,
é vazia porque caatinga.
Cheira à morte que apodrece.
A vida nela evapora,
emigra.
O galho é seco,
o gado ossudo,
profundo de cheio é o bucho
de verme, de fome e de lombriga.
Alice
Alice. Depois desse poema, cedo 644 caracteres.
Lindo, lindo. Forte e poético, lembrou meu Pernambuco, um norte de Minas Gerais que eu nunca conheci e mais uns pedaços dessa terra seca pisadas por pés mais secos ainda.
Muito bonito. :}
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