Nunca esqueci o dia em que, menino,
vi, pela primeira vez, de perto, um caboclo de lança. Foi no Centro do Recife,
próximo ao mercado de São José. Vestida com a “gola”, a indumentária feita de
lantejoulas coloridas cuidadosamente instaladas como uma armadura, aquela
entidade amarela, azul e vermelha segurava uma enorme lança de madeira com firmeza
digna de fé. Na boca, a flor característica e os lábios cerrados em uma
seriedade assustadora. Vi a cena com curiosidade e certo receio. Meu pai tentou
me explicar o que se passava. Lembro que não conseguiu. Ninguém conseguiria. Era fevereiro, nas
semanas anteriores à festa mais bonita e sincera de todas.
Com o passar dos
anos, de uma infeliz rejeição e incompreensão, minha relação com o carnaval
tornou-se necessária. A primeira vez que subi as ladeiras de Olinda, em um
sábado de Galo da Madrugada, e vi a força das infinitas cores do sítio histórico,
as percepções mudaram definitivamente. As incontáveis orquestras de frevo, os
caboclinhos, cirandas e troças acompanhando o cortejo de fantasias e
mascarados, os incontáveis sorrisos e abraços de encontro e reencontro, a identificação
de realmente pertencer àquele lugar organizado em uma desordem absoluta. Os
braços para o alto, como antenas apontando para o céu, acompanhados de pés que
levitam, na catarse de “Vassourinhas” e dos confetes e serpentinas do Elefante.
Os históricos casarões portugueses sendo tomados pela turba mais alucinada, a
cordialidade de Holanda personificada naqueles rostos queimados do sol do
trópico. Não mais hostil, mas acolhedor, um abraço quente e denso na interminável festa
que, se dura da sexta-feira à acachapante quarta-feira de cinzas, permanece no
peito durante o decurso do ano. Baco, sacana, inegável dizer, foi muito feliz. Nos
enfeitiçou, de forma perpétua: nas alfaias, trombones, estandartes, clarins e
personas. Essas, se durante as quatro estações vestimos dissimuladamente, todos
os dias, preferimos, quando estamos na mais etérea e singular massa humana, escancará-las,
despir-nos das máscaras do cotidiano para vestirmos outras, menos embrutecidas
e dissimuladas.
O carnaval, como a fé daquele caboclo, é sincero. Ali, a nossa
felicidade é a maior de todas. A tristeza também. A tristeza somente como saudade,
exílio, porque não há espaço para a dor em meio à celebração. Os deuses, sábios
entendedores da alma humana, não permitiriam. Amar o carnaval é amar a própria história; não se trata de uma simples “festa”, mas, ao contrário, da identificação com a origem. É um relacionamento
imaterial, intenso, perpétuo, com a mais bela e fiel das mulheres. Porque quem
gosta de carnaval gosta para sempre. É a festa pagã que mais representa o sonho
católico: “sejam felizes para sempre”. E serão.
De pequeno, no mercado de São
José, à altura de barbas escorrendo pelo rosto, como agora, nunca houve brigas,
separações, desentendimentos. Os distanciamentos, é verdade, doem. A saudade é
parte dessa equação eterna, que começou ali, na vista daquela figura mística,
parte do maracatu rural, envolta em um mistério ainda sem solução. A colorida imagem
daquele caboclo de lança, tenho a impressão, acompanha minhas andanças nos dias
de Momo até hoje. É o inexplicável espírito do carnaval.
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