segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Interlúdio

O interfone tocou.
- É Pedro, pra senhora - disse a voz.
- Pode mandar subir – respondeu.
Vaidosa, foi para a frente do espelho e conferiu os cabelos. Estavam razoavelmente arrumados. Estava sem batom, mas, bem, agora não daria tempo.
A campainha tocou.
- Oi, Flávia – disse um rapaz com seus 16, em inglês, voz rouca e masculina.
- Oi, Pedro – respondeu.
Entrou no cômodo. Era uma sala média, com mobília de madeira e uma mesa de vidro no centro. Em cima da mesa, uma toalhinha rendada branca, daquelas que se compra em feirinha.
Ela esperou. Ele sentou. Ela sentou sem seguida.
- Como foi o fim de semana? – ela perguntou, tocando os cabelos e passando a mão pelos lábios.
- Foi bom, nada demais. Fui ao cinema – respondeu, sem olhar nos olhos dela.
Ela vestia uma saia curta, um pouco acima dos joelhos, preta. As pernas cruzadas embaixo da mesa de vidro, sapatos igualmente pretos.
Ele não olhou.
- Bem, que bom. Viu alguma coisa boa? – ela perguntou.
- Um filme de ação, não gostei muito – o rapaz respondeu.
Ela tocou novamente os cabelos lisos e negros, que iam até os ombros. Era uma mulher em seus cinqüenta e muitos. Olhos cansados, algumas olheiras, pele marcada de sol. Rugas. Mas a saia preta curta estava lá. Depois da resposta, ele abriu a mochila e tirou uns papéis rabiscados.
- Eu só consegui fazer parte da lição – confessou.
Ela sorriu.
- Sem problemas. Vamos corrigir o que você fez.
Ela abriu um enorme livro. O rapaz a olhou nos olhos, desconcertado. Ela deu-lhe um meio sorriso. Daqueles que a boca mal abre. Ele não respondeu.
Em seguida, começaram a correção da lição.
- Ok, agora você faz esse exercício de múltipla escolha. Você tem 20 minutos. No máximo, ok? – perguntou ela.
- Ok.
O rapaz debruçou-se sobre as folhas do exercício. Textos longos em branco e preto desvelavam-se por páginas e páginas. Começou a ler o material.
Ela o fitava insistentemente. Embaixo da mesa, um tango de suas pernas. Cruzava e descruzava. Em dado momento, afastou a toalhinha da mesa para que o vidro desse mais espaço à carne. Cruzou as pernas de novo. O rapaz estava concentrado na tarefa designada.
Uma porta se abriu e um homem com seus 60 passou pela sala. A mulher levantou os olhos e lhe abriu um sorriso. Ele ignorou solenemente. Passou por professora e aluno e entrou em outro cômodo. Ela desceu os olhos. Tornou a fitar o aluno, candidamente.
Alguns segundos depois, o homem tornou a passar pela sala, dessa vez com um copo d’água. Novamente o gesto se repetiu. Ele a ignorou. Ela coçou a boca com a mão e colocou as mãos enrugadas sobre as coxas por debaixo da mesa.
Os 20 minutos se passaram. O rapaz acertou poucos exercícios. Finda uma hora, deixou R$ 70 sobre a mesa. Levantou.
- Então até terça – disse.
- Até – respondeu ela, olhando-o profundamente nos olhos.
O elevador chegou, ele se foi. Ela ainda ficou no corredor do andar por alguns segundos, mirando a porta fechada. Depois, olhou para as próprias pernas e mãos. Entrou em casa, sentou na cadeira da mesa de vidro e ficou ali, em silêncio.
Cinco minutos depois, o interfone tornou a tocar.
- Senhora, é o Rodrigo – disse a voz.
- Pode mandar subir.
Ela sorriu, ajeitou os cabelos, conferiu a saia, os anéis nos dedos.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

I need a lover with soul power

And you ain't got no soul power

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

28 minutos

A relação que desenvolvi com a música beira o desaconselhável. Passo horas pesquisando, escutando e, até recentemente, escrevendo sobre música. Poucas coisas me deixam mais realizado que ver um bom show, viajar para assistir a um festival, conversar sobre música com amigos e desconhecidos. Cansei de ir sozinho para shows. E continuo indo. Gosto de ouvir discos antes de dormir, quando ando de bicicleta na praia, no trânsito. Gosto de ouvir discos com fone de ouvido para poder ouvir os graves com mais atenção. Catalogo discos, dou notas, classifico todos os álbuns que ouço por gênero e ano. Faço listas de melhores shows, melhores discos, melhores capas, melhores discos de 1968, melhores discos de 1997. Tento compartimentar um prazer tão disperso, que a grande maioria das pessoas encara como mero passatempo, como atividade acessório para outra. É um processo interminável de conhecimento de discos, bandas, gêneros. Praticamente toda semana deparo-me com um disco incrível ou uma banda desconhecida que vale a pena; essas pequenas descobertas valem.

Não se para mais para ouvir um disco. Aliás, nem mesmo se usa mais a palavra disco. Virou sinônimo de passado. Passado como o ato de parar um pouco e colocar a bolacha para girar, realmente fazer valer aquele momento. Eu escrevo disco. Lembra a fase dos grandes álbuns conceituais, de blocos de música casualmente separados por faixas ou lados, de minutos de gravações com sequência temática que os tornam únicos. Curiosamente, nunca vivi essa fase. Lembro dos vinis dos meus pais, lembro de vinis empoeirados do Roberto Carlos e do Nazareth na casa dos meus avós, mas nunca vivenciei o ato de viver o vinil. Apesar dessa incongruência, levada a cabo por questões cronológicas, sinto que compartilho desse sentimento que não vivi. Desse sentimento passado de dar devida atenção a uma obra. Trabalho árduo esse, que pode levar tempo, ao contrário da fugacidade dos .mp3, .flac, .wav etc.

Achar certos discos dá trabalho. Vários são difíceis de encontrar em uma qualidade decente, mesmo em tempos de internet. Outros simplesmente não estão aí para serem baixados ou coisa que o valha. Estão esperando uma boa alma disponibilizá-los. O meu processo de busca por música é muito solitário. Quando se tratam de lançamentos do ano corrente, tento ouvir tudo o que aparece, mas, claro, com mais atenção aos gêneros que me atraem mais. É absolutamente impossível ouvir tudo. Quanto aos anos anteriores, normalmente busco referências aleatórias para novos discos e, na maioria das vezes, vou no feeling atrás de um álbum ou artista. Diversas vezes isso funcionou e eu repassei adiante a dica.

Gosto de poder indicar um disco ou banda para alguém, ou gravar um disco com faixas aleatórias que representem um pouco da pessoa. Ou simplesmente com músicas que eu creio que ela vá gostar. É a velha sensação de compartilhar conhecimento, mesmo que a reação seja negativa. Receber indicações, ato contrário, também é processo engrandecedor. Pela minha busca incessante por música, normalmente recebo menos dicas. O processo fica, em grande medida, solitário. Mas há certos discos que vêm de modo inesperado. Muitos são redescobertos por intermédio de outras pessoas. Isso marca, quando se tratam de discos verdadeiramente importantes. Encaro como um encontro de sensibilidades.

Há discos que não são fáceis, que requerem certo amadurecimento e, arrisco dizer, acostumar os ouvidos para serem realmente compreendidos. Outros eu simplesmente ouço no turbilhão de álbuns que me deparo semanalmente e não dou a devida atenção. Há outros que acabam compartimentados em pastas e tocadores de música e só aparecem quando o shuffle resolve colaborar. Além disso, há aqueles que não podem ser ouvidos devidamente, pela falta de tempo, e são atropelados por outros afazeres; são ouvidos como acessórios de outras atividades. Perdem força não por culpa deles, mas por culpa exclusiva minha. Assim, vários acabam esquecidos em um limbo de notas, listas e classificações em gêneros, sem serem compreendidos como deveriam.

Nesse processo de redescobertas trazidas por outros, veio o Pink Moon (1972). Há pelo menos sete anos já tinha ouvido o disco diversas vezes, mas por pura falta de maturidade, desinteresse ou incapacidade, não dei a devida atenção à obra 28 minutos de Nick Drake. Talvez por ser um disco com voz, violão, piano (em apenas uma faixa) e uma carga emocional gigantesca. Gravado em somente duas noites, é um trabalho carregado de paradoxos. Cru, não deixa de ser um retrato de um artista depressivo e melancólico. Talvez por isso bonito. E direto. Há certos discos que, creio, não podem ser acessados sozinho, você precisa de alguém que lhe dê a mão e mostre o verdadeiro valor de uma obra de arte. Que abra seus olhos para algo que você negligenciou, que mostre, às vezes de modo indireto, o incomensurável poder de apenas 28 minutos de voz, acordes e um mísero piano. Lembro de grandes discos da minha vida que foram indicações de outras pessoas. Discos esses que marcaram e ainda marcam etapas, que não podem ser dissociados do meu amadurecimento e descoberta do mundo.

Lembro de cada um deles e dos momentos em que foram indicados. E de todas essas pessoas. E também lembro os discos que indiquei e que mudaram a vida de outros. A memória do sujeito da indicação e da própria confunde-se, embaralha-se, fixa. Atribui-se sentido adicional ao trabalho artístico.

Diversos discos que marcaram a minha vida estão ligados a momentos específicos, a contextos mutáveis, a condições climáticas características, a pessoas específicas. O processo cresce ao ser compartilhado.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

a todos

por um fim de ano lindo, colorido e sonoro; por um novo começar, um turbilhão de bons sentimentos, lirismos, sorrisos; por um eterno caminhar, completo em sua incompletude; pela vontade de tomar asas de empréstimo, de voar.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Suzana estava grávida de um fibroma

Esta história é baseada em fatos reais. Foi escrita em 2006.

Suzana estava grávida de um fibroma

Foi uma novela daquelas para escolher o nome do primeiro filho. “Eu quero ou Felipe Deividson da Silva ou Felipe Cristina da Silva”, dizia Suzana Cristina. Mas Felipe Cristina não pode, Suzana. Não é sobrenome... “Não me interessa. Fica muito mais bonito que só Felipe”. Depois descobrimos que o Deividson vinha da marca de motocicletas mais famosa do mundo, a Harley-Davidson. Em todo esse impasse, o menino acabou nascendo Felipe da Silva mesmo, vitória da resistência em massa das pessoas. Ele já veio ao mundo sem saber quem era o pai.

Suzana fazia a limpeza, cozinhava e costumava varrer a casa como ninguém, nunca deixava uma sujeirinha pelos cantos. É uma mulher grande, alta, gordinha, com voz acelerada, gestos acelerados e riso descontrolado. Quebrava xícaras com uma facilidade incrível. Quando Felipe nasceu, ela se acalmou mais, passou a dar assistência a seu filho. Era uma festa todas as vezes que o pequeno Deividson aparecia vestido com as cores do Santa Cruz. Boné, sapatinhos e roupas de Ricardo Rocha. “Ele já foi da seleção, era muito craque”, justificava a mãe.

Quatro anos depois, Suzana teve uma súbita crise durante a preparação de um almoço e colocou-se a vomitar. “Eu tou muito mal, sabe, mas acho que foi o tempero da comida ou alguma coisa estragada que eu comi ontem”. Uma ida ao banheiro e tudo voltava ao normal, afinal, Suzana era uma mulher forte. Era bastante forte mesmo.

Até que um dia o “forte” virou gorda. Que barriga enorme. Seria gravidez denovo? “Não tou grávida não, é um fibroma que me apareceu. Por isso minha barriga ta inchada desse jeito”, dizia Suzana. Ela estava grávida de um fibroma, um tumor benigno que se desenvolve a partir do crescimento anormal das fibras musculares que constituem a parede do útero.

O filho de Suzana era o próprio útero dela. E assim os dias foram passando e o fibroma aumentava mais e mais. As pessoas andavam muito desconfiadas, mas Suzana sabia desmentir como ninguém. “Já fui no médico, dotôra. Eles me avaliaram toda. O fibroma ta crescendo, mas não corro risco de morrer não”. A mãe dela, dona Helena, confirmava a versão de que seria vovó de fibras musculares. “Se ela tivesse grávida eu já teria notado. Eu tenho olho clínico, notei com duas semanas quando ela engravidou de meu netinho. Ninguém me engana não”.

Enganou. Depois de oito meses de gestação do fibroma, um dia Suzana sumiu, não foi trabalhar. “Parece que ela foi fazer a operação do fibroma, que o médico tinha aconselhado”. Dona Helena tampouco sabia do caso. Meudeusdocéu, cadê minha filha. Eis que uma cruzada por todos os hospitais da cidade se iniciou. Onde diabos estaria Suzana. “Essa cirurgia é demorada mesmo, o fibroma é uma coisa complicada”, contou uma amiga dela.

Algumas horas depois Suzana ligou. “Estou aqui no Albert Sabin, acabaram de operar meu fibroma e eu estou bem. Em um dia ou dois eu chego em casa”. Ah, que bom que foi tudo bem. A mãe respirava aliviada por ter encontrado a filha. Alguém então notou que o Albert Sabin era uma maternidade.

Dona Helena chegou esbaforida à maternidade. Em um leito, Suzana estava branca como a neve e com soro no braço. “Meu deus, minha filha. Você não ta com fibroma nada, você tava me enganando!”. Indignou-se. Ao pé da cama, negligenciado pela mãe, estava Fibroma Cristina da Silva. Ou Fibroma Deividson da Silva, uma menininha enrolada em um cobertor.

Ao invés de estar nos braços da mãe, a criança estava no pé da cama. Suzana não esboçava maior reação. Ela simplesmente não queria aquele tecido muscular com ela. O bebezinho, para ela, era um fibroma. Segundo a enfermeira, nem ao ter contato com a menina Suzana esboçou uma reação mais emocional.

“Ela queria dar a menina logo depois que pariu. Ela chegou aqui desesperada e quando a menina nasceu ela disse que eu podia entregar para qualquer pessoa que eu encontrasse”, revelou a enfermeira. Dona Helena continuava indignada. Ela xingava a filha no meio do hospital. “Você não é mais minha filha! Desnaturada! Como você faz isso com minha neta, hein?! Você não pode dar sua filha!”. A maternidade, atônita, observava aquilo.

Ao ver que Suzana continuava imóvel na cama, sem a menor demonstração de sentimento para com o bebê, Dona Helena resolveu levar a menina para casa. Ela não tinha nem roupas, afinal, fibromas não usam roupas, não iam meias rosas e nem fraldas. Algumas doações de outros pacientes da maternidade resolveram o problema em primeira ordem.

Ao sair da maternidade, Suzana voltou a trabalhar. Disse que a filha estava com a irmã, Rosineide. Ela seria a mãe da menina, agora com nome, Júlia. Sem Deividson e sem Cristina. Dona Helena, feliz com a netinha, nunca mais voltou a falar com a filha. Suzana, que também não chegou a conhecer o pai da menina, ainda continua tratando Júlia como se não fosse dela.

“Eu não estava grávida. Estava com um fibroma. Essa menina é filha da minha irmã, ela achou no hospital”.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

O amor é uma vela laranja

Escrito em 2009.

Era sexta-feira à noite. Ele vestiu a sua melhor camisa, aquela azul listrada que ela adorava, e chegou mais cedo do trabalho. Entrou em casa na ponta do pé, mas ela ainda não havia chegado. Melhor. Arrumou a casa, varreu o chão e organizou a mesa da sala, aquela que só era usada para ocasiões especiais. Tirou as revistas de cima do vidro e colocou uma toalha rendada daquelas que ela comprava quando ia para o interior ver a família. Dentro de um embrulho que trouxe, várias velas aromatizadas. Ela adora as velas aromatizadas, sempre que ia ao shopping procurava as mais coloridas e com os melhores aromas.

Colocou um avental para não sujar a camisa e foi para a frente do fogão de quatro bocas que tinha ganho do Márcio na ocasião do casamento. Grande Márcio, o único defeito dele era torcer para o Botafogo. Dentro de uma das panelas de inox, um pedaço suculento de filé, imerso em um molho maravilhoso. Na outra panela, crepitante, um molho de mostarda igual ao do livro de receitas borbulhava, ansioso para encontrar a carne. Na terceira boca do fogão, macarrão. Eu nem gostava tanto assim de macarrão, mas ela era apaixonada por massa, por ela a gente comia massa todo dia. Vai ver é coisa da ascendência italiana. Um pouquinho de azeite, pimenta e um punhado de queijo ralado dentro de um pote de prata. Arrumou a comida na mesa e acendeu três velas laranjas. Eram tão laranjas que dava vontade de comê-las.

O perfume no ambiente era afrodisíaco. Ela vai ficar tão impressionada que vai me atacar, com certeza. Faz quase três dias que não nos vemos direito, ela sempre preocupada com as coisas da agência, andava trabalhando em turno dobrado. Dava até pena. O sexo já não era a mesma coisa de quando a gente namorava. Antes era uma loucura, todos os dias, em qualquer lugar, ambiente público ou não. Eu até ficava meio incomodado com aquilo, mas ela sabia me excitar como ninguém. Adorava quando, depois do sexo, ela encostava a cabeça no meu peito e ficava lembrando de como a gente tinha se conhecido e de como eu sabia deixar ela louca.

Me lembro como se fosse hoje. Tinha ido ao cinema assistir um filme asiático. Não sei exatamente qual era o dia, mas era dia de semana. Não tinha ninguém na sessão, só eu. Depois eu vi que ela vinha com um livro na mão e usava óculos de borda grossa. Adoro mulher que usa óculos de borda grossa. Estava com uma saia vermelha e aqueles sapatos franceses. Já se vestia como uma publicitária. Sentou perto de mim e deu um sorriso tímido, daqueles de canto de lábio. Não resisti e acabamos casando.

Lembrava do passado sentado no sofá, tomando o vinho chileno que tinha ganho do sogro, quando ouviu o barulho de chave na porta da frente. Correu para a cozinha, esperando ela entrar. Luiza vestia preto, dos pés a cabeça, e tinha uma aparência de acabada. O tempo e o trabalho vão mutilando as pessoas, mas ela continuava linda. Minha Luiza parecia personagem dos filmes noir da década de 40, tinha até sombra nos olhos.

Ela entrou e viu a mesa repleta de adornos e com os pratos que ele havia preparado. Sentou na cadeira e ficou parada, olhando para a vela laranja. Apagou o fogo com um sopro e depois tornou a acendê-lo, usando a chama de outra vela. Ela nem tinha me visto ainda, parecia cansada com alguma coisa. Resolvi chegar por trás e coloquei as duas mãos sobre os ombros dela. Era um bom massagista, sabia brincar com os dedos tão bem que ela soltou a bolsa e a pasta que carregava e se encolheu toda. Depois, tirou minhas mãos dos ombros e pediu para eu sentar na cadeira ao lado. Só depois que sentei eu vi que a maquiagem preta que usava no rosto estava toda borrada. A mancha negra que escorria por baixo dos olhos chegava até a altura da boca vermelha e seu corpo estava desfalecido na cadeira, parecia que estava morta. Fiquei comovido com aquilo e a abracei.

- Luiza, linda, a gente pode comer outro dia. Você não quer tomar banho e depois ficar deitada comigo?, perguntei.

Ela não respondeu nada, ficou só olhando para baixo, com a boca tremendo e uma lágrima escorrendo pelo olho esquerdo. Eu continuava abraçando-a, sem entender nada, quando ela resolveu falar a primeira coisa em mais de dez minutos.

- Eu não te amo mais, desculpa.
- Como?, perguntei, chocado. Parei de abraçá-la.
- Desculpa, Fábio. Eu simplesmente não consigo mais, não sinto mais aquilo por você.
- O que aconteceu? Alguma vez eu te tratei mal, te ofendi? Eu te amo Luiza.
- É que estou apaixonada.

Fábio levantou da cadeira e acendeu um cigarro. Suas mãos tremiam.

- Apaixonada por quem, porra?
- Prefiro não falar.
- Já que é para me foder, me fode direito. Por quem, porra?, tornou a perguntar, transtornado com a notícia.
- Pelo Márcio.
- Puta que pariu, Luiza. Pelo Márcio? Pelo meu melhor amigo?
- Ninguém comanda isso, Fábio. Desculpa, mas eu não consigo mais.

Luiza levantou-se e deu uma última olhada na mesa, disse ter adorado as velas laranjas e foi embora. Fábio estava no segundo cigarro. Sentou na cadeira, serviu-se e comeu o espetacular filé ao molho mostarda. Não colocou macarrão. Depois de comer, ficou sentado vendo as chamas consumirem as velas.