A banda tocava, um tanto enfurecida, sob luzes faiscantes
e quentes, os braços da plateia, que se jogava de um lado para o outro, em um
balanço de mar, pés soltos na areia do tablado, olhos vidrados naquela
adulação sonora. Em meio àquela multidão hipnotizada, havia um olhar distinto. Um
olhar que, curioso, não olhava o palco, não mirava a mesma direção das milhares
de retinas vizinhas. Focava-se, ao contrário, em um outro olhar. Os olhos um
tanto esverdeados daquele rosto visavam outros, castanhos, sorridentes,
pequenos, paralisados. A mulher ignorava solenemente o que se passava ao redor e se
fixava, em meio à massa humana, àqueles olhos, barba, dentes, nariz. Enquanto o
mundo se movia, pés saltitavam e dancinhas proliferavam, os olhos dela tinham
apenas um destino. Um abrigo reconfortante, quente, cálido. O interessante é que
era ela quem gostava da música. Estava mais do que claro que ela que o trouxe
para o show. Não fosse ela, poder-se-ia apostar o quanto fosse, ele ali não
estaria. Certeza. Os sorrisos dele não eram o clarão de felicidade de quem
vivencia uma experiência auditiva. Era outro sentimento. Ne sais quoi. À medida que as
músicas iam sendo trabalhadas e construídas em meio a uma aura densa, etérea,
sonhadora, ela pairava no ar olhando para ele. Estava de costas para o palco. O
tempo inteiro. Ela cantava todas as músicas, mesmo as instrumentais, mas ignorava
os músicos. Eles eram parte de um espetáculo privado, uma trilha sonora de
fundo para um abraço que ela procurava – e causava. Em dado momento, a coisa
beirou o ridículo. Chegou ao cúmulo de dançarem de mãos dadas, como que numa
valsa, em um baile de guitarras e xilofones. Aquilo irritou um bocado de gente.
Deu pra perceber. O casal dançava de um lado para o outro, cercado de olhos e
ouvidos atentos, numa comunhão tão íntima que tudo levava a crer que eram os
outros os intrusos. Estavam atrapalhando uma das mais doces entregas, um bailar
esquisito e desconcertado. Depois, ela (sempre ela!), passou a fingir que o
ignorava – isso olhando para ele – só para ter certeza que ele ficaria
perturbado com aquilo. Ele fingia ficar. Depois dos segundos de bobeira, os
dois voltavam a se abraçar. O mundo acabava nos metros quadrados no entorno. Não
era importante. A música funcionava somente como pano de fundo de um encontro há tanto
esperado. Ou não: o amor é
negócio tão imprevisível que talvez eles tenham se visto há vinte minutos. O fato é que aquilo continuou durante toda a apresentação. Contaram-se
os minutos em que ela olhou para frente. Uns dez? Talvez menos. O show dela
era outro. Ele, coitado, não fazia questão de estar ali. Já que estava – por causa
dela, claro – tentava fazê-la sentir-se única. O rapaz era esforçado, reconhece-se. Abraçava,
rodopiava, metia as mãos naqueles quadris finos, mexia os cabelos pretos
ondulados, dizia coisas no ouvido... Tinha uma mania incomum de segurar as
orelhas dela. O fato é que ele, ao contrário dela, não entendia ou conhecia
quem tocava. Um minuto de observação e isso ficava mais do que claro. O modo
como olhava para o palco era inseguro, aquela insegurança típica de quem está
vendo algo novo. Mas ele gostava do que via. Gostava por que ela estava feliz. Mas ignorava
a banda. Ponto. Isso não tem discussão. Ele poderia estar em qualquer lugar que
a reação seria a mesma. O irônico é que era ele, que não conhecia
aquele turbilhão de instrumentos marcianos, que estava voltado para o palco. O amor
é injusto. Ela, certamente a culpada pela ida, trocava um show pelo
outro. Ou ficava pela metade em cada um. A verdade é que
parecia não se importar com o que “perdia”. O outro lado era mais
significativo.
quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013
quinta-feira, 24 de janeiro de 2013
Crônica de um amor perpétuo
Nunca esqueci o dia em que, menino,
vi, pela primeira vez, de perto, um caboclo de lança. Foi no Centro do Recife,
próximo ao mercado de São José. Vestida com a “gola”, a indumentária feita de
lantejoulas coloridas cuidadosamente instaladas como uma armadura, aquela
entidade amarela, azul e vermelha segurava uma enorme lança de madeira com firmeza
digna de fé. Na boca, a flor característica e os lábios cerrados em uma
seriedade assustadora. Vi a cena com curiosidade e certo receio. Meu pai tentou
me explicar o que se passava. Lembro que não conseguiu. Ninguém conseguiria. Era fevereiro, nas
semanas anteriores à festa mais bonita e sincera de todas.
Com o passar dos
anos, de uma infeliz rejeição e incompreensão, minha relação com o carnaval
tornou-se necessária. A primeira vez que subi as ladeiras de Olinda, em um
sábado de Galo da Madrugada, e vi a força das infinitas cores do sítio histórico,
as percepções mudaram definitivamente. As incontáveis orquestras de frevo, os
caboclinhos, cirandas e troças acompanhando o cortejo de fantasias e
mascarados, os incontáveis sorrisos e abraços de encontro e reencontro, a identificação
de realmente pertencer àquele lugar organizado em uma desordem absoluta. Os
braços para o alto, como antenas apontando para o céu, acompanhados de pés que
levitam, na catarse de “Vassourinhas” e dos confetes e serpentinas do Elefante.
Os históricos casarões portugueses sendo tomados pela turba mais alucinada, a
cordialidade de Holanda personificada naqueles rostos queimados do sol do
trópico. Não mais hostil, mas acolhedor, um abraço quente e denso na interminável festa
que, se dura da sexta-feira à acachapante quarta-feira de cinzas, permanece no
peito durante o decurso do ano. Baco, sacana, inegável dizer, foi muito feliz. Nos
enfeitiçou, de forma perpétua: nas alfaias, trombones, estandartes, clarins e
personas. Essas, se durante as quatro estações vestimos dissimuladamente, todos
os dias, preferimos, quando estamos na mais etérea e singular massa humana, escancará-las,
despir-nos das máscaras do cotidiano para vestirmos outras, menos embrutecidas
e dissimuladas.
O carnaval, como a fé daquele caboclo, é sincero. Ali, a nossa
felicidade é a maior de todas. A tristeza também. A tristeza somente como saudade,
exílio, porque não há espaço para a dor em meio à celebração. Os deuses, sábios
entendedores da alma humana, não permitiriam. Amar o carnaval é amar a própria história; não se trata de uma simples “festa”, mas, ao contrário, da identificação com a origem. É um relacionamento
imaterial, intenso, perpétuo, com a mais bela e fiel das mulheres. Porque quem
gosta de carnaval gosta para sempre. É a festa pagã que mais representa o sonho
católico: “sejam felizes para sempre”. E serão.
De pequeno, no mercado de São
José, à altura de barbas escorrendo pelo rosto, como agora, nunca houve brigas,
separações, desentendimentos. Os distanciamentos, é verdade, doem. A saudade é
parte dessa equação eterna, que começou ali, na vista daquela figura mística,
parte do maracatu rural, envolta em um mistério ainda sem solução. A colorida imagem
daquele caboclo de lança, tenho a impressão, acompanha minhas andanças nos dias
de Momo até hoje. É o inexplicável espírito do carnaval.
quarta-feira, 9 de janeiro de 2013
O Som ao Redor (de uma cidade incompleta)
Normalmente, a experiência
cinematográfica ganha força superior quando o espectador consegue criar uma conexão
identitária, nostálgica ou ideológica com a obra. Uma interação extrassensorial
que extrapola o senso comum ou mesmo o que se passa durante o tempo de exibição
da película.
Nas minhas quatro horas e vinte e
dois minutos de O Som ao Redor, o significado do filme de Kleber Mendonça Filho
engrandeceu-se tanto ou mais que os conflitos que suas personagens enfrentam. Na
segunda, mais do que na primeira vez, os silêncios e os significados ocultos do
filme passaram a reverberar com mais força.
Sou pernambucano. Nasci no Recife,
numa segunda-feira de junho de 1986. Nesse fatídico dia, a União Soviética
vencia o Canadá e a França goleava a Hungria. Era ano de Copa do Mundo. Dias
mais tarde, eu na incubadora, com fios de ficção científica na cabeça,
o Brasil de José Sarney perderia para a mesma França numa indigesta e inesquecível
disputa de pênaltis.
Mais de 26 anos passaram-se e
muitas mudanças vieram. Em mim e no Recife. Ao mesmo tempo, vendo a cidade no
último mês, pouca coisa mudou. Do bairro da Encruzilhada, onde nasci, para a
eterna casa dos meus avós, no Hipódromo, e para minhas últimas moradas na
Nassau, em Boa Viagem, onde se passa o filme, o intervalo de tempo trouxe
mudanças indeléveis, mas que guardam o mesmo substrato. A clínica de
acupuntura, o curso de inglês e a quadra da praia, que eu frequentei por mais
de quatro anos, continuam lá. Mas a mudança de que trata o filme vai muito além.
A máxima de Giuseppe di
Lampedusa, autor de “O Leopardo”, mais tarde transformado em filme por
Visconti, de que “as coisas precisam mudar para que permaneçam iguais”, é a
alegoria dos tempos hodiernos. “O Som ao Redor” fala disso.
Fala de um tempo que vem se
esvaindo, por um matiz civilizatório e urbano, com vernizes de verticalização,
concreto armado e pisos de cerâmica. Ocorre que, nesse processo, as cicatrizes
do passado – minhas, suas, das personagens do filme – permanecem lá, prontas
para serem remexidas.
O Recife é uma dessas personagens.
Da “Casa-Grande & Senzala”, de Gilberto Freyre, com sua tão combalida tese
de convivência harmoniosa entre as três raças conformadoras da identidade
brasileira, até a investigação sociológica de Sérgio Buarque de Holanda em “Raízes
do Brasil”, Pernambuco conserva tradições, medos, incompletudes. Uma história
inconclusa de uma cidade que se reconstrói. A cidade dos demiurgos que vem, aos
poucos, tendo sua identidade transmudada.
Aos poucos sendo comida por
gigantes de ferro e de aço, os arrogantes “edifícios de 40 andares, com olhos
de vidro e cores berrantes”, narrados por Siba, a Recife que visitei recentemente é sinal do
“progresso” por qual passa o país. A evolução dos tempos não nega: nasci em um
apartamento de três andares; vivi até os quatro anos em uma casa de vila no
bairro do Hipódromo, com grades brancas e muro de musgo, iguais aos da Setúbal
passada de “O Som ao Redor”; e, na minha última vivência na cidade, morei em
dois prédios. Dois arrogantes de olhos de vidro e corpo de aço, ladrões do sol
das areias da praia de Boa Viagem.
Sair da cidade que amamos tem
dessas coisas. O distanciamento das origens, assim como acontece com o amor,
ajuda-nos a compreender melhor os fatos e as mudanças. Em 1990, mudei-me para o
Rio de Janeiro. Em 2004, voltei ao Recife. Ao longo desse tempo, visitava, ao
menos uma vez por ano, a cidade. As transformações eram brutais. Muito do que lembro
daquele quintal do Hipódromo é facilmente reconhecível por vários
contemporâneos meus da cidade dos rios, canais e mau-cheiro, e presente, ainda que cada
vez menos, hoje: os corações-de-nego; o futebol no meio da rua, como os
meninos da Setúbal de Kleber Mendonça Filho; o entregador de sorvetes que
passava com um sino; os “bom dia” na rua; o vendedor de caldo de cana; os
carroceiros; os banquinhos de cimento em que ficavam os senhores e as senhoras
da rua Martins Ribeiro; os cachorros que atormentavam meus avós dia e noite.
Esses acontecimentos marcaram
minha infância e meu presente. Em 2007, meus avós se mudaram do Hipódromo, por
razões que não convêm explicitar aqui. Hoje, como acontece com grande parte da
Recife que conheci, moram em edifício. Depois que saíram, nunca tiveram coragem
de voltar àquela casa de muro musgo e grades brancas. A última notícia que tive
é que está à venda. Como o bairro é tombado, a casa não pode ser demolida para
dar lugar a um edifício. Linda, continua lá, vazia. Ao lado dela, suas vizinhas
enfeitam-se com mais e mais arames farpados, cercas eletrônicas e cachorros à
prova de som.
As pessoas vêm verticalizando o
Recife. As relações ficam verticalizadas. O fenômeno ajuda a manter a
incompletude dessa modernidade impiedosa. Acho que o filme de Kleber fala, um
tanto, da saudade de um tempo que, ainda que permaneça, vem sendo consumido. O
medo, sentimento que percorre impiedosamente toda a narrativa, não é só físico,
mas também é medo de perder as memórias. Trata-se de um questionamento real e
pertinente do cotidiano dos recifenses, que, é notório, não é coincidência. Numa
das cenas mais bonitas de “Era uma Vez Eu, Verônica”, de Marcelo Gomes, a
personagem de Hermila Guedes leva o pai doente, interpretado por J.W. Solha,
para rever a antiga casa onde morara. Um pedaço do passado que, assim como as muitas
casas do Arruda, Torreão e Setúbal, só para citarmos alguns bairros, vêm
desaparecendo.
Curioso notar como esse mesmo
J.W. Solha mantém uma relação diametralmente oposta com a terra e a propriedade
como o Francisco de “O Som ao Redor”. De personagem fragilizado no filme de
Gomes, é, na obra de Kleber, o retrato do coronelismo latente que ainda paira,
como penumbra, nas relações sociais pernambucanas. Uma aristocracia decadente,
falida moralmente, mas que preserva relações hierárquicas, marcadas pelo mandonismo
e pelo preconceito.
Dono de engenho na Zona da Mata
pernambucana, ele também monopoliza as terras que hoje dão espaço aos espigões
da porção sul do Recife. Quem tem a terra tem o poder. Moral, pecuniário e
social. Como os arcaicos senhores de terras da Pernambuco do século XVI, em que
os “homens bons” eram os que mantinham rendas “enraizadas” em terra e domínio
político, Francisco mantém séquitos de empregados, devidamente diferenciados
pela cor da pele, e uma silenciosa ascensão simbólica sobre os demais.
Naquele espaço público, como em
muito do que ocorre no atual debate imobiliário pernambucano, o privado
sobressai-se. Nisso, a reflexão de “O Som ao Redor” é importante: privatizam-se
os espaços físicos, mas, mais do que isso, as relações humanas.
De cerca de um ano para cá, sinto
que vem surgindo um novo momento de reflexão acerca da cidade. Do Recife como
um organismo vivo que vem morrendo como era e dando espaço a um outro,
metamorfoseado e desconhecido. Assusta. O debate público sobre essa questão,
refletido aqui no cinema, suscita problemas que a vida política não conseguiu
dar seguimento.
De fato, desde 2004, quando
voltei ao Recife, até 2008, quando me mudei, fui imerso por um cotidiano caótico
e pela “normalização” de um processo de destruição do passado. Paradoxalmente,
essa destruição do passado ocorre com a preservação de inúmeras características
que vemos no “homem cordial” de Buarque de Holanda ou nos “donos do poder” de Raimundo Faoro.
Muito disso, mascarado no “orgulho” – que também sinto – de ser pernambucano.
Com essas transformações, e a
perda das referências que nos tornam o que somos, surge um medo sufocador e
nauseante que compartilha a rotina com os recifenses. Fiz muitas coberturas
policiais por um certo período e vi coisas inimagináveis. Os seguranças e
moradores da Setúbal de “O Som ao Redor” veem pouco nas duas horas e onze
minutos de filme. Mas o fato é que não precisam vê-lo, assim, escancarado. O
medo, característica indelével do habitante do Recife atual, perpassa as
relações sociais, o receio pela cor da pele, pela origem social, pelo passado
de sobrenome, pelas posses.
Kleber Mendonça Filho lida com
esses incômodos monstros de forma silenciosa. Pelo silêncio, trata da paranoia
da classe média em um país-continente que, assim como a cidade de seu filme, vem
mudando radicalmente desde a última década. Como que em uma crônica de costumes,
mostra sequências que, aparentemente um tanto banais, guardam significado mais
amplo. Talvez por causa disso venha provocando tamanho debate e despertado
tanto interesse. Mostra um Recife perdido entre o passado e o presente, sem saber que futuro terá. Por tantas razões, é um filme que deve ser visto e divulgado. Como grande obra
que é, pensa tempos aterrorizantes – e interessantes.
Marcadores:
j w solha,
kleber mendonça filho,
marcelo gomes,
neighboring sounds,
o som ao redor,
pernambuco,
recife,
veronica
domingo, 2 de dezembro de 2012
2012 em discos
Esse post será editado com discos lançados neste estranho, complexo e um tanto bonito 2012.
Tame Impala – Lonerism
Ouça: "Why They Won't Talk to Me?"; "Keep on Lying" e "Music to Walk Home By"
Grizzly Bear - Shields “Sleeping Ute”, a faixa que abre Shields, o quarto álbum de estúdio do Grizzly Bear, indica que a banda tem capacidade de sobra de ir além do muito elogiado Veckatimest (2009). O recurso a efeitos explosivos e a indissociáveis camadas de guitarras – que solam junto com os vocais de Ed Droste – mostram que o quarteto norte-americano pode fazer mais que o folk psicodélico que os consagrou. Se os timbres harmônicos contrastantes com experimentalismos instrumentais continuam marca do grupo em “The Hunt” e “Half Gate”, esse parece ter descoberto como se reinventar. “Speak in Rounds”, o refrão com baterias marciais entrega, tem uma sonoridade parecida ao canadense Arcade Fire, ainda que com vocais mais rasgados de Droste. “Yet Again”, com vozes a la Tom Yorke e uma complexa composição instrumental – baseada nas sequências de metais e em guitarras “etéreas” que crescem em uma jam quase noise no final -, tem uma pegada que não faria feio a nenhuma das faixas do “Ok Computer”. Shields tem uma gradação marcante de ritmo. Depois das quatro primeiras e explosivas faixas – em um tom excessivamente otimista – a banda encontra suas raízes em “The Hunt”, um belo, grave e um tanto dramático interlúdio. Em sequência, mais três maravilhosos presentes progressistas, com destaque para os tecladinhos dançantes de “A Simple Answer”. A arte de capa, que lembra uma carta de baralho, é assinada pelo pintor Richard Diebenkorn, associado à arte abstrata e ao expressionismo. Em um ano incomum, com tantos bons lançamentos, Shields destoa e se destaca. Os dois meses de isolamento dos músicos resultaram em um imenso cuidado, sensibilidade e força nos 47 minutos do novo trabalho.
Ouça: "Speak in Rounds"; "Yet Again"
Gospeed You! Black Emperor - Allelujah! Don't Bend! Ascend!
No amor e na música, os hiatos
mais angustiantes são aqueles em que os amantes se separam gostando um do
outro. A trôpega sensação de incompletude e o eterno reviver o passado criam situações
quase insustentáveis de nostalgia. Com o Godspeed You! Black Emperor, esse
sentimento demorou longos e torturantes 10 anos para maturar. Desde Yanqui
U.X.O. (2002), uma bela e complexa sinfonia experimental de post-rock e drone, o
coletivo canadense de nove músicos não havia lançado nenhum álbum de estúdio.
Enquanto isso, a constelação de músicos do grupo se dedicava aos numerosos
projetos paralelos e irmãos do GY!BE: 1-Speed Bike; Black Ox Orkestar; Fly Pan
Am; Set Fires to Flames; e A Silver Mt. Zion, só para citarmos alguns. A espera
de uma década foi encerrada finalmente com Allelujah! Don’t Bend! Ascend!
(2012), disco lançado pelo iluminado selo canadense Constellation Records,
especializado em post-rock, indie e experimental. A começar pelo próprio nome
da banda, o gosto por exclamações é marca presente no título do novo álbum. Os
três sinais gráficos não constam por mera distração. Eles expressam fielmente o
espanto causado pelas quatro faixas de Allelujah!, uma espécie de revisitação dos
principais trabalhos da carreira do grupo. Não é difícil classificar Allelujah!
como uma mistura do tom apocalíptico de F♯A♯∞ [1995-1997] com a beleza de Lift Yr. Skinny Fists Like
Antennas to Heaven! (2000) e o drone amainado do Yanqui U.X.O. (2002). O disco está estruturado em dois grandes
carros-chefe, faixas com mais de 20 minutos de duração e terreno dos principais
exercícios criativos de um dos maiores expoentes do post-rock, um interlúdio e
um epílogo, ambos com seis minutos. “Mladic” e “We Drift Like Worried Fire”, as
maiores, contêm os elementos básicos do post-rock – baterias marciais,
guitarras com texturas, progressões de sons com derradeiras explosões de
timbres e acordes – elevados ao nível característico do GY!BE. Sinfonias que
vão do silêncio sepulcral a momentos de claridade branda, passando por ecos de
fúria e microfonias paradoxalmente harmônicas. “Their Helicopter’s Sing” e “Strung
Like Lights at Thee Prinptems Erable” somam, em contrapartida, pouco mais de 12
minutos de drone e ambient – que vão desde sons de gaitas de fole até vendavais
tortuosos – uma fortuita estratégia, frente à grandiosidade e à exigência das
duas outras músicas. Ainda que não seja do nível de um Lift Yr. Skinny Fists
Like Antennas to Heaven!, um dos maiores e mais bonitos projetos experimentais
que se tem notícia, Allelujah! é uma experiência singular e poderosa.
Ouça: "Mladic"
Beach House - Bloom
Beach House - Bloom
Pode-se dizer que Bloom, quarto
álbum do duo norte-americano Beach House é o disco de dream-pop do ano. Depois
do bom Teen Dream (2010), Bloom segue caminho parecido, ainda que apostando
mais nos sintetizadores, nos vocais fugazes e intensamente bonitos de Victoria
Legrand e nas baterias eletrônicas do que seu antecessor. À diferença dos
demais da banda, o disco apresenta uma intensidade um tanto escondida que, como
o próprio nome traduz, vai se construindo, florescendo, ao longo do álbum. “Lazuli”,
“Troublemaker” e “Wishes”, tríade que melhor representa o disco, ainda que não
levem a uma inexorável empolgação do ouvinte, são retratos do quase obsessivo
cuidado formal realizado na composição de Bloom, produzido por Chris Coady (Yeah
Yeah Yeahs e Blonde Redhead). Bloom trata-se de trabalho cuja intensidade é descoberta
nos pequenos detalhes: se, à primeira vista parece um álbum eminentemente um
tanto otimista e solar, guarda suas surpresas nos tons escuros que marcaram os
outros discos do duo. Sustentando-se sobre 10 faixas coerentes, Bloom é de uma
delicadeza ímpar. Numa comparação, lembra uma transcendental ida à praia,
naqueles dias de sol que, calmamente, vão se apagando.
Ouça: "Troublemaker"; "Wishes"
∆ - An Awesome Wave
“An Awesome Wave”, do quarteto britânico ∆ (se pronuncia Alt-J, que é a tecla de atalho no teclado do Mac para a letra grega delta), é, provavelmente, uma das principais surpresas do ano. Formada por estudantes da universidade de Leeds e lembrando a Wild Beasts, a banda de indie rock tem uma sonoridade progressiva, com bases eletrônicas pesadas, algumas batidas típicas de hip hop, baixo de post-punk e mais um tanto. Ainda assim, o disco impressiona pela crueza e pelas músicas grudentas. “Breezeblocks” é, fácil, uma das melhores músicas do ano, junto com “Matilda”. Vale salientar que o álbum é uma das mais recentes provas que a Pitchfork – que deu 4.8 de nota para o disco – anda precisando de uma urgente reformulação.
“An Awesome Wave”, do quarteto britânico ∆ (se pronuncia Alt-J, que é a tecla de atalho no teclado do Mac para a letra grega delta), é, provavelmente, uma das principais surpresas do ano. Formada por estudantes da universidade de Leeds e lembrando a Wild Beasts, a banda de indie rock tem uma sonoridade progressiva, com bases eletrônicas pesadas, algumas batidas típicas de hip hop, baixo de post-punk e mais um tanto. Ainda assim, o disco impressiona pela crueza e pelas músicas grudentas. “Breezeblocks” é, fácil, uma das melhores músicas do ano, junto com “Matilda”. Vale salientar que o álbum é uma das mais recentes provas que a Pitchfork – que deu 4.8 de nota para o disco – anda precisando de uma urgente reformulação.
Ouça: "Matilda"
Neil Young & Crazy Horse - Psychedelic Pill
Só por “Driftin’ Back”, o petardo
de pouco mais de 27 minutos que abre o disco duplo, “Psychedelic Pill”, do composto
Neil Young & Crazy Horse, já mereceria ser citado em qualquer lista de
melhores do ano. A gigantesca faixa, uma densa viagem psicodélica e hipnótica com
pouquíssimas vozes e comandada por estridentes guitarras, apesar de não ter o
impacto de hits mais diretos, como os clássicos “Revolution Blues” (74), “Hey,
Hey, My My” (78) ou “Cinnamon Girl” (69), relembra passagens instrumentais de
algumas das melhores músicas da carreira de Young, como “Cowgirl in the Sand” (69)
ou “Down by the River” (69). Assim como indicam essas últimas, feitas também em
conjunção com o Crazy Horse, “Psychedelic Pill” é, naturalmente, um poderoso álbum
de guitarras. A bagagem da fase áurea do canadense (After the Gold Rush – Harvest
- On The Beach) decerto aparece, mas de forma mais perceptível nos vocais e nas
letras das nove faixas que compõem os cerca de 80 minutos de “Psychedelic Pill”.
“Ramada Inn” e “Walk Like a Giant”, ambas com 16 minutos, respectivamente no primeiro
e no segundo discos do álbum duplo, se são musicalmente mais criativas que “Driftin’
Back”, por não ficam presas às amarras em loop da ótima primeira faixa, corroboram
a intensa sonoridade roqueira do disco. Já “She’s Always Dancing” é talvez a melhor faixa do disco. Com um fraseado um tanto sobrenatural e nostálgico, o
que não parece nada estranho para um cantor de 67 anos, traz três refrões. As
guitarras, como era de se esperar de uma reunião do canadense com o Crazy
Horse, estão lá, soberanas.
Ouça: "She's Always Dancing"; "Walk Like a Giant"
Marcadores:
albuns,
alt-j,
an awesome wave,
beatles,
best of 2012,
flaming lips,
innerspeaker,
kevin parker,
led zeppelin,
lonerism,
matilda,
pitchfork,
post-punk,
syd barret,
tame impala,
wild beasts
Assinar:
Comentários (Atom)
