segunda-feira, 25 de março de 2013

Ausência



Acordou e, como fazia todas as manhãs, esticou o braço esquerdo à procura. A pele tocou o travesseiro fofo e ali ficou. Não houve contato humano. Estranhou. Normalmente ela o acordava com um beijo antes de sair da cama. Abriu os olhos o mais rápido que o normal e bagunçou ainda mais os cabelos, numa tentativa um tanto desajeitada de acordar sem a presença dela. Não sabia como fazer. Permanecia em um estado de incômodo torpor com o qual não sabia lidar. A lentidão o fez se movimentar. Saltou da cama vagorosamente e olhou as cortinas. Estavam fechadas. Normalmente ela abria as cortinas antes de sair da cama. A escuridão tomava conta do quarto e o escondia em penumbra, impedindo que olhasse com precisão as coisas em volta. Talvez a mulher ainda estivesse ali.

- Ana... 

Silêncio. 

À falta de resposta, continuou o movimento de renascimento diário e colocou uma bermuda. Calçou os chinelos gastos azuis e passou a mão na cara carcomida pela barba, indagando a incompletude do cenário. Um ato falho, não terminado. Não entendia, apesar do esforço. O mais estranho: o outro lado da cama estava completamente organizado, límpido, como se ninguém tivesse usado aquele espaço. O espaço da cumplicidade. Ficou, ainda no escuro, tento contato com aquela superfície da cama, passando a ponta dos dedos, no branco do lençol, numa tentativa vã de transformá-lo em cabelos, em cílios, em pele. Uma sequência dolorosa de frustrações. 

Dali, sem abrir a cortina, sem desligar o gélido ar condicionado, seguiu para o banheiro. Abriu a porta numa pequena esperança. Achava que Ana poderia estar lhe fazendo uma surpresa, escondida em algum cômodo. Não que ela já tenha feito isso antes. Abriu a porta, pé-ante-pé. Ninguém. Água no entorno da pia e a tampa do vaso sanitário levantada. Normalmente a tampa do vaso ficava fechada, ela não gostava daquilo. Era de uma organização ímpar. Ele, o oposto. 

Olhou-se no espelho. Barba, cabelos, dentes. Uma multidão de imperfeições e desencontros biológicos à sua frente. Ficou se olhando por alguns segundos. Encheu as mãos de água fria e jogou nos olhos. Só nos olhos, pois acreditava que só os olhos eram necessários para se acordar. Ignorou o resto do rosto. Em seguida, olhou, um tanto atordoado, para um pequeno copo onde ficavam as escovas de dente. Ali, só uma escova: azul. A outra, laranja, desaparecida. Abriu a gaveta embaixo da pia. Toalhas. Abriu o blindex. Um xampú e um sabonete. Normalmente eram vários. E condicionador. Escovou os dentes com uma lentidão incomum, tentando racionalizar a falta. Era a instituicionalização da ausência tomando forma.

Foi até a cozinha. Normalmente, sentia o cheiro do café ainda no corredor. Ela, diurna e ativa, costumava acordar mais cedo e preparar o café. Ele, criatura da noite, demorava a se acostumar com hábitos tão primitivos; ela, contudo, o havia feito perceber vida antes das 18h. Naquele dia não havia café, torradas, frutas, nada. A cozinha estava impecável, mármore, fórmica branca, pia de metal. Na geladeira, nenhum recado. A foto que costumava ficar ali, dos dois, sorridentes, em viagem, só costumava. E não parecia que foi arrancada. Situava-se sob um ímã de morango, gordo e redondo. O ímã continuava ali, instigante, vermelho. A foto, não. 

Abriu o armário. A geladeira. A gaveta dos talheres. Abriu tudo com certa calma irritante. Procurava algo que o reconfortasse. Achou café, pão e garfos. Fez o café e uma torrada. Dirigiu-se à sala, com uma dor que começava a questionar a até então dominante calma. Era uma sensação falsa, sonsa. Ele lembrava da analista, que dizia que fazer aquilo era costume de quem sentia uma raiva incomensurável das coisas. Talvez. Olhou em volta na sala, o jornal do dia anterior estendido sobre o sofá, aberto em alguma seção igualmente desinteressante e insípida. Olhou a data: quarta-feira. Normalmente comprava o jornal junto com Ana, depois de tomarem o café preto de todos os dias.

Ao fim do café, pendurado no parapeito da janela, uma dor esfuziante começava a tomar conta de seu peito. O vazio daquele cômodo era suportável. O do incômodo, não. Fazia um calor sufocante e, mesmo assim, havia pouca luz. Tentava rememorar o que poderia haver ocorrido. Na sua cabeça, pouco se passava. A sensação de luto era a maior de todas, parecia-lhe impossível lidar. Um eterno enterro. Fechou os olhos com força. Ficou assim alguns segundos. Um minuto, talvez. Abriu. A sala continuava idêntica. Ligou para Ana. Sem resposta. Tornou a ligar. Ausência. 

Mais agitado, retornou ao quarto. Abriu o armário, viu muitos vestidos. Alguns ainda tinham o seu cheiro. Muitos coloridos. Outros não. Abraçou os que não tinham o cheiro. Lembravam menos ainda a mulher. Apertou-os com tanta força contra si que chorou. Tentou, de novo, rememorar o possível motivo do desaparecimento. Não conseguia conceber. 

Voltou para a sala. Sentou-se em uma cadeira elevada – daquelas de bar – e ficou olhando pela janela, sentindo o abafado, como se esperasse poder ser levado da mesma forma que ela. Ficou assim vários momentos, um tanto imóvel, um luto de perda da outra metade da cama.

Em meio ao transe, um barulho de fechadura. Pensou ser parte do delírio e continou de olhos fechados, como que ainda sonâmbulo. Doutro lado da porta, Ana, com o jornal e flores. 

- Oi, meu amor.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Para ver a banda passar



A banda tocava, um tanto enfurecida, sob luzes faiscantes e quentes, os braços da plateia, que se jogava de um lado para o outro, em um balanço de mar, pés soltos na areia do tablado, olhos vidrados naquela adulação sonora. Em meio àquela multidão hipnotizada, havia um olhar distinto. Um olhar que, curioso, não olhava o palco, não mirava a mesma direção das milhares de retinas vizinhas. Focava-se, ao contrário, em um outro olhar. Os olhos um tanto esverdeados daquele rosto visavam outros, castanhos, sorridentes, pequenos, paralisados. A mulher ignorava solenemente o que se passava ao redor e se fixava, em meio à massa humana, àqueles olhos, barba, dentes, nariz. Enquanto o mundo se movia, pés saltitavam e dancinhas proliferavam, os olhos dela tinham apenas um destino. Um abrigo reconfortante, quente, cálido. O interessante é que era ela quem gostava da música. Estava mais do que claro que ela que o trouxe para o show. Não fosse ela, poder-se-ia apostar o quanto fosse, ele ali não estaria. Certeza. Os sorrisos dele não eram o clarão de felicidade de quem vivencia uma experiência auditiva. Era outro sentimento. Ne sais quoi. À medida que as músicas iam sendo trabalhadas e construídas em meio a uma aura densa, etérea, sonhadora, ela pairava no ar olhando para ele. Estava de costas para o palco. O tempo inteiro. Ela cantava todas as músicas, mesmo as instrumentais, mas ignorava os músicos. Eles eram parte de um espetáculo privado, uma trilha sonora de fundo para um abraço que ela procurava – e causava. Em dado momento, a coisa beirou o ridículo. Chegou ao cúmulo de dançarem de mãos dadas, como que numa valsa, em um baile de guitarras e xilofones. Aquilo irritou um bocado de gente. Deu pra perceber. O casal dançava de um lado para o outro, cercado de olhos e ouvidos atentos, numa comunhão tão íntima que tudo levava a crer que eram os outros os intrusos. Estavam atrapalhando uma das mais doces entregas, um bailar esquisito e desconcertado. Depois, ela (sempre ela!), passou a fingir que o ignorava – isso olhando para ele – só para ter certeza que ele ficaria perturbado com aquilo. Ele fingia ficar. Depois dos segundos de bobeira, os dois voltavam a se abraçar. O mundo acabava nos metros quadrados no entorno. Não era importante. A música funcionava somente como pano de fundo de um encontro há tanto esperado. Ou não: o amor é negócio tão imprevisível que talvez eles tenham se visto há vinte minutos. O fato é que aquilo continuou durante toda a apresentação. Contaram-se os minutos em que ela olhou para frente. Uns dez? Talvez menos. O show dela era outro. Ele, coitado, não fazia questão de estar ali. Já que estava – por causa dela, claro – tentava fazê-la sentir-se única. O rapaz era esforçado, reconhece-se. Abraçava, rodopiava, metia as mãos naqueles quadris finos, mexia os cabelos pretos ondulados, dizia coisas no ouvido... Tinha uma mania incomum de segurar as orelhas dela. O fato é que ele, ao contrário dela, não entendia ou conhecia quem tocava. Um minuto de observação e isso ficava mais do que claro. O modo como olhava para o palco era inseguro, aquela insegurança típica de quem está vendo algo novo. Mas ele gostava do que via. Gostava por que ela estava feliz. Mas ignorava a banda. Ponto. Isso não tem discussão. Ele poderia estar em qualquer lugar que a reação seria a mesma. O irônico é que era ele, que não conhecia aquele turbilhão de instrumentos marcianos, que estava voltado para o palco. O amor é injusto. Ela, certamente a culpada pela ida, trocava um show pelo outro. Ou ficava pela metade em cada um. A verdade é que parecia não se importar com o que “perdia”. O outro lado era mais significativo.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Crônica de um amor perpétuo



Nunca esqueci o dia em que, menino, vi, pela primeira vez, de perto, um caboclo de lança. Foi no Centro do Recife, próximo ao mercado de São José. Vestida com a “gola”, a indumentária feita de lantejoulas coloridas cuidadosamente instaladas como uma armadura, aquela entidade amarela, azul e vermelha segurava uma enorme lança de madeira com firmeza digna de fé. Na boca, a flor característica e os lábios cerrados em uma seriedade assustadora. Vi a cena com curiosidade e certo receio. Meu pai tentou me explicar o que se passava. Lembro que não conseguiu. Ninguém conseguiria. Era fevereiro, nas semanas anteriores à festa mais bonita e sincera de todas. 

Com o passar dos anos, de uma infeliz rejeição e incompreensão, minha relação com o carnaval tornou-se necessária. A primeira vez que subi as ladeiras de Olinda, em um sábado de Galo da Madrugada, e vi a força das infinitas cores do sítio histórico, as percepções mudaram definitivamente. As incontáveis orquestras de frevo, os caboclinhos, cirandas e troças acompanhando o cortejo de fantasias e mascarados, os incontáveis sorrisos e abraços de encontro e reencontro, a identificação de realmente pertencer àquele lugar organizado em uma desordem absoluta. Os braços para o alto, como antenas apontando para o céu, acompanhados de pés que levitam, na catarse de “Vassourinhas” e dos confetes e serpentinas do Elefante.

Os históricos casarões portugueses sendo tomados pela turba mais alucinada, a cordialidade de Holanda personificada naqueles rostos queimados do sol do trópico. Não mais hostil, mas acolhedor, um abraço quente e denso na interminável festa que, se dura da sexta-feira à acachapante quarta-feira de cinzas, permanece no peito durante o decurso do ano. Baco, sacana, inegável dizer, foi muito feliz. Nos enfeitiçou, de forma perpétua: nas alfaias, trombones, estandartes, clarins e personas. Essas, se durante as quatro estações vestimos dissimuladamente, todos os dias, preferimos, quando estamos na mais etérea e singular massa humana, escancará-las, despir-nos das máscaras do cotidiano para vestirmos outras, menos embrutecidas e dissimuladas. 

O carnaval, como a fé daquele caboclo, é sincero. Ali, a nossa felicidade é a maior de todas. A tristeza também. A tristeza somente como saudade, exílio, porque não há espaço para a dor em meio à celebração. Os deuses, sábios entendedores da alma humana, não permitiriam. Amar o carnaval é amar a própria história; não se trata de uma simples “festa”, mas, ao contrário, da identificação com a origem. É um relacionamento imaterial, intenso, perpétuo, com a mais bela e fiel das mulheres. Porque quem gosta de carnaval gosta para sempre. É a festa pagã que mais representa o sonho católico: “sejam felizes para sempre”. E serão. 

De pequeno, no mercado de São José, à altura de barbas escorrendo pelo rosto, como agora, nunca houve brigas, separações, desentendimentos. Os distanciamentos, é verdade, doem. A saudade é parte dessa equação eterna, que começou ali, na vista daquela figura mística, parte do maracatu rural, envolta em um mistério ainda sem solução. A colorida imagem daquele caboclo de lança, tenho a impressão, acompanha minhas andanças nos dias de Momo até hoje. É o inexplicável espírito do carnaval.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

O Som ao Redor (de uma cidade incompleta)



Normalmente, a experiência cinematográfica ganha força superior quando o espectador consegue criar uma conexão identitária, nostálgica ou ideológica com a obra. Uma interação extrassensorial que extrapola o senso comum ou mesmo o que se passa durante o tempo de exibição da película. 

Nas minhas quatro horas e vinte e dois minutos de O Som ao Redor, o significado do filme de Kleber Mendonça Filho engrandeceu-se tanto ou mais que os conflitos que suas personagens enfrentam. Na segunda, mais do que na primeira vez, os silêncios e os significados ocultos do filme passaram a reverberar com mais força. 

Sou pernambucano. Nasci no Recife, numa segunda-feira de junho de 1986. Nesse fatídico dia, a União Soviética vencia o Canadá e a França goleava a Hungria. Era ano de Copa do Mundo. Dias mais tarde, eu na incubadora, com fios de ficção científica na cabeça, o Brasil de José Sarney perderia para a mesma França numa indigesta e inesquecível disputa de pênaltis. 

Mais de 26 anos passaram-se e muitas mudanças vieram. Em mim e no Recife. Ao mesmo tempo, vendo a cidade no último mês, pouca coisa mudou. Do bairro da Encruzilhada, onde nasci, para a eterna casa dos meus avós, no Hipódromo, e para minhas últimas moradas na Nassau, em Boa Viagem, onde se passa o filme, o intervalo de tempo trouxe mudanças indeléveis, mas que guardam o mesmo substrato. A clínica de acupuntura, o curso de inglês e a quadra da praia, que eu frequentei por mais de quatro anos, continuam lá. Mas a mudança de que trata o filme vai muito além.

A máxima de Giuseppe di Lampedusa, autor de “O Leopardo”, mais tarde transformado em filme por Visconti, de que “as coisas precisam mudar para que permaneçam iguais”, é a alegoria dos tempos hodiernos. “O Som ao Redor” fala disso. 

Fala de um tempo que vem se esvaindo, por um matiz civilizatório e urbano, com vernizes de verticalização, concreto armado e pisos de cerâmica. Ocorre que, nesse processo, as cicatrizes do passado – minhas, suas, das personagens do filme – permanecem lá, prontas para serem remexidas. 

O Recife é uma dessas personagens. Da “Casa-Grande & Senzala”, de Gilberto Freyre, com sua tão combalida tese de convivência harmoniosa entre as três raças conformadoras da identidade brasileira, até a investigação sociológica de Sérgio Buarque de Holanda em “Raízes do Brasil”, Pernambuco conserva tradições, medos, incompletudes. Uma história inconclusa de uma cidade que se reconstrói. A cidade dos demiurgos que vem, aos poucos, tendo sua identidade transmudada. 

Aos poucos sendo comida por gigantes de ferro e de aço, os arrogantes “edifícios de 40 andares, com olhos de vidro e cores berrantes”, narrados por Siba, a Recife que visitei recentemente é sinal do “progresso” por qual passa o país. A evolução dos tempos não nega: nasci em um apartamento de três andares; vivi até os quatro anos em uma casa de vila no bairro do Hipódromo, com grades brancas e muro de musgo, iguais aos da Setúbal passada de “O Som ao Redor”; e, na minha última vivência na cidade, morei em dois prédios. Dois arrogantes de olhos de vidro e corpo de aço, ladrões do sol das areias da praia de Boa Viagem. 

Sair da cidade que amamos tem dessas coisas. O distanciamento das origens, assim como acontece com o amor, ajuda-nos a compreender melhor os fatos e as mudanças. Em 1990, mudei-me para o Rio de Janeiro. Em 2004, voltei ao Recife. Ao longo desse tempo, visitava, ao menos uma vez por ano, a cidade. As transformações eram brutais. Muito do que lembro daquele quintal do Hipódromo é facilmente reconhecível por vários contemporâneos meus da cidade dos rios, canais e mau-cheiro, e presente, ainda que cada vez menos, hoje: os corações-de-nego; o futebol no meio da rua, como os meninos da Setúbal de Kleber Mendonça Filho; o entregador de sorvetes que passava com um sino; os “bom dia” na rua; o vendedor de caldo de cana; os carroceiros; os banquinhos de cimento em que ficavam os senhores e as senhoras da rua Martins Ribeiro; os cachorros que atormentavam meus avós dia e noite. 

Esses acontecimentos marcaram minha infância e meu presente. Em 2007, meus avós se mudaram do Hipódromo, por razões que não convêm explicitar aqui. Hoje, como acontece com grande parte da Recife que conheci, moram em edifício. Depois que saíram, nunca tiveram coragem de voltar àquela casa de muro musgo e grades brancas. A última notícia que tive é que está à venda. Como o bairro é tombado, a casa não pode ser demolida para dar lugar a um edifício. Linda, continua lá, vazia. Ao lado dela, suas vizinhas enfeitam-se com mais e mais arames farpados, cercas eletrônicas e cachorros à prova de som. 

As pessoas vêm verticalizando o Recife. As relações ficam verticalizadas. O fenômeno ajuda a manter a incompletude dessa modernidade impiedosa. Acho que o filme de Kleber fala, um tanto, da saudade de um tempo que, ainda que permaneça, vem sendo consumido. O medo, sentimento que percorre impiedosamente toda a narrativa, não é só físico, mas também é medo de perder as memórias. Trata-se de um questionamento real e pertinente do cotidiano dos recifenses, que, é notório, não é coincidência. Numa das cenas mais bonitas de “Era uma Vez Eu, Verônica”, de Marcelo Gomes, a personagem de Hermila Guedes leva o pai doente, interpretado por J.W. Solha, para rever a antiga casa onde morara. Um pedaço do passado que, assim como as muitas casas do Arruda, Torreão e Setúbal, só para citarmos alguns bairros, vêm desaparecendo.

Curioso notar como esse mesmo J.W. Solha mantém uma relação diametralmente oposta com a terra e a propriedade como o Francisco de “O Som ao Redor”. De personagem fragilizado no filme de Gomes, é, na obra de Kleber, o retrato do coronelismo latente que ainda paira, como penumbra, nas relações sociais pernambucanas. Uma aristocracia decadente, falida moralmente, mas que preserva relações hierárquicas, marcadas pelo mandonismo e pelo preconceito. 

Dono de engenho na Zona da Mata pernambucana, ele também monopoliza as terras que hoje dão espaço aos espigões da porção sul do Recife. Quem tem a terra tem o poder. Moral, pecuniário e social. Como os arcaicos senhores de terras da Pernambuco do século XVI, em que os “homens bons” eram os que mantinham rendas “enraizadas” em terra e domínio político, Francisco mantém séquitos de empregados, devidamente diferenciados pela cor da pele, e uma silenciosa ascensão simbólica sobre os demais. 

Naquele espaço público, como em muito do que ocorre no atual debate imobiliário pernambucano, o privado sobressai-se. Nisso, a reflexão de “O Som ao Redor” é importante: privatizam-se os espaços físicos, mas, mais do que isso, as relações humanas. 

De cerca de um ano para cá, sinto que vem surgindo um novo momento de reflexão acerca da cidade. Do Recife como um organismo vivo que vem morrendo como era e dando espaço a um outro, metamorfoseado e desconhecido. Assusta. O debate público sobre essa questão, refletido aqui no cinema, suscita problemas que a vida política não conseguiu dar seguimento. 

De fato, desde 2004, quando voltei ao Recife, até 2008, quando me mudei, fui imerso por um cotidiano caótico e pela “normalização” de um processo de destruição do passado. Paradoxalmente, essa destruição do passado ocorre com a preservação de inúmeras características que vemos no “homem cordial” de Buarque de Holanda ou nos “donos do poder” de Raimundo Faoro. Muito disso, mascarado no “orgulho” – que também sinto – de ser pernambucano. 

Com essas transformações, e a perda das referências que nos tornam o que somos, surge um medo sufocador e nauseante que compartilha a rotina com os recifenses. Fiz muitas coberturas policiais por um certo período e vi coisas inimagináveis. Os seguranças e moradores da Setúbal de “O Som ao Redor” veem pouco nas duas horas e onze minutos de filme. Mas o fato é que não precisam vê-lo, assim, escancarado. O medo, característica indelével do habitante do Recife atual, perpassa as relações sociais, o receio pela cor da pele, pela origem social, pelo passado de sobrenome, pelas posses. 

Kleber Mendonça Filho lida com esses incômodos monstros de forma silenciosa. Pelo silêncio, trata da paranoia da classe média em um país-continente que, assim como a cidade de seu filme, vem mudando radicalmente desde a última década. Como que em uma crônica de costumes, mostra sequências que, aparentemente um tanto banais, guardam significado mais amplo. Talvez por causa disso venha provocando tamanho debate e despertado tanto interesse. Mostra um Recife perdido entre o passado e o presente, sem saber que futuro terá. Por tantas razões, é um filme que deve ser visto e divulgado. Como grande obra que é, pensa tempos aterrorizantes – e interessantes.



domingo, 2 de dezembro de 2012

2012 em discos



Esse post será editado com discos lançados neste estranho, complexo e um tanto bonito 2012. 


Tame Impala – Lonerism
O clichê parece irritante, mas dizer que “Lonerism” marca algo como o “retorno dos Beatles” ou o “novo disco do Syd Barret” não soa tão absurdo assim. Dois anos depois de lançar o já muito elogiado “Innerspeaker”, o trio australiano amplia o tom da psicodelia e, nas 12 faixas do disco, faz lembrar alguns momentos de “Revolver” (1966) e de “The Piper at the Gates of Dawn (67)”. Ouvir em sequência “Why Won’t They Talk to Me?” e “A Day In Life” ajuda a esclarecer algumas coisas. O fato é que além de ser naturalmente parecido com o timbre de John Lennon, o vocal de Kevin Parker, cérebro da banda, é modificado pelo uso de kazoo, o que faz com que a voz fique ainda mais parecida com a do beatle. A edição especial do disco, somente veiculada na Austrália e com uma faixa a mais chamada “Led Zeppelin” (um provável lado-b do Physical Graffiti), escancara que o grupo, assumidamente, faz homenagem ao passado. Mais bem produzido, escrito e editado que “Innerspeaker”, “Lonerism” tem uma gigantesca aura “dream pop”, facilitada pelos constantes coros e pelos incansáveis sintetizadores, que ajudam a sustentar a psicodelia esperada, que não só ecoa, como também não faz feio a nenhum dos clássicos discos do Flaming Lips. Em “Feels Like We Only Go Backwards”, os corinhos – com camadas e mais camadas de efeitos – acompanham um pesado baixo suingado e Lenn... Parker em uma espécie de aconchegante falsete. Provavelmente a mais pop e dançante do disco, “Keep on Lying” tem os melhores riffs de guitarra de “Lonerism”. Envoltos em samples de risos, conversas e discussões, criam uma perfeita atmosfera de tarde de verão, daquele calor que, aos poucos, vai-se acabando. A capa do disco - uma foto de Parker do Jardim de Luxemburgo – e os clipes, são reproduções fiéis do que se esperar de “Lonerism”. Imagens difusas, desconexas reproduções de sentidos e cores densas, formas geométricas que, como toda boa psicodelia, servem para ampliar percepções e conduzir o som. Aos que reclamam que não se produzem mais discos como antigamente, o novo trabalho do Tame Impala nasce, em essência, com um gosto de saudade, uma vontade de abraçar o que já foi. Uma bela e franca homenagem. 
Ouça: "Why They Won't Talk to Me?";  "Keep on Lying" e "Music to Walk Home By"


Grizzly Bear - Shields  “Sleeping Ute”, a faixa que abre Shields, o quarto álbum de estúdio do Grizzly Bear, indica que a banda tem capacidade de sobra de ir além do muito elogiado Veckatimest (2009). O recurso a efeitos explosivos e a indissociáveis camadas de guitarras – que solam junto com os vocais de Ed Droste – mostram que o quarteto norte-americano pode fazer mais que o folk psicodélico que os consagrou. Se os timbres harmônicos contrastantes com experimentalismos instrumentais continuam marca do grupo em “The Hunt” e “Half Gate”, esse parece ter descoberto como se reinventar. “Speak in Rounds”, o refrão com baterias marciais entrega, tem uma sonoridade parecida ao canadense Arcade Fire, ainda que com vocais mais rasgados de Droste. “Yet Again”, com vozes a la Tom Yorke e uma complexa composição instrumental – baseada nas sequências de metais e em guitarras “etéreas” que crescem em uma jam quase noise no final -, tem uma pegada que não faria feio a nenhuma das faixas do “Ok Computer”. Shields tem uma gradação marcante de ritmo. Depois das quatro primeiras e explosivas faixas – em um tom excessivamente otimista – a banda encontra suas raízes em “The Hunt”, um belo, grave e um tanto dramático interlúdio. Em sequência, mais três maravilhosos presentes progressistas, com destaque para os tecladinhos dançantes de “A Simple Answer”. A arte de capa, que lembra uma carta de baralho, é assinada pelo pintor Richard Diebenkorn, associado à arte abstrata e ao expressionismo. Em um ano incomum, com tantos bons lançamentos, Shields destoa e se destaca. Os dois meses de isolamento dos músicos resultaram em um imenso cuidado, sensibilidade e força nos 47 minutos do novo trabalho. 
Ouça"Speak in Rounds"; "Yet Again"



Gospeed You! Black Emperor - Allelujah! Don't Bend! Ascend!
No amor e na música, os hiatos mais angustiantes são aqueles em que os amantes se separam gostando um do outro. A trôpega sensação de incompletude e o eterno reviver o passado criam situações quase insustentáveis de nostalgia. Com o Godspeed You! Black Emperor, esse sentimento demorou longos e torturantes 10 anos para maturar. Desde Yanqui U.X.O. (2002), uma bela e complexa sinfonia experimental de post-rock e drone, o coletivo canadense de nove músicos não havia lançado nenhum álbum de estúdio. Enquanto isso, a constelação de músicos do grupo se dedicava aos numerosos projetos paralelos e irmãos do GY!BE: 1-Speed Bike; Black Ox Orkestar; Fly Pan Am; Set Fires to Flames; e A Silver Mt. Zion, só para citarmos alguns. A espera de uma década foi encerrada finalmente com Allelujah! Don’t Bend! Ascend! (2012), disco lançado pelo iluminado selo canadense Constellation Records, especializado em post-rock, indie e experimental. A começar pelo próprio nome da banda, o gosto por exclamações é marca presente no título do novo álbum. Os três sinais gráficos não constam por mera distração. Eles expressam fielmente o espanto causado pelas quatro faixas de Allelujah!, uma espécie de revisitação dos principais trabalhos da carreira do grupo. Não é difícil classificar Allelujah! como uma mistura do tom apocalíptico de FA∞ [1995-1997] com a beleza de Lift Yr. Skinny Fists Like Antennas to Heaven! (2000) e o drone amainado do Yanqui U.X.O. (2002). O disco está estruturado em dois grandes carros-chefe, faixas com mais de 20 minutos de duração e terreno dos principais exercícios criativos de um dos maiores expoentes do post-rock, um interlúdio e um epílogo, ambos com seis minutos. “Mladic” e “We Drift Like Worried Fire”, as maiores, contêm os elementos básicos do post-rock – baterias marciais, guitarras com texturas, progressões de sons com derradeiras explosões de timbres e acordes – elevados ao nível característico do GY!BE. Sinfonias que vão do silêncio sepulcral a momentos de claridade branda, passando por ecos de fúria e microfonias paradoxalmente harmônicas. “Their Helicopter’s Sing” e “Strung Like Lights at Thee Prinptems Erable” somam, em contrapartida, pouco mais de 12 minutos de drone e ambient – que vão desde sons de gaitas de fole até vendavais tortuosos – uma fortuita estratégia, frente à grandiosidade e à exigência das duas outras músicas. Ainda que não seja do nível de um Lift Yr. Skinny Fists Like Antennas to Heaven!, um dos maiores e mais bonitos projetos experimentais que se tem notícia, Allelujah! é uma experiência singular e poderosa. 
Ouça: "Mladic"

Beach House - Bloom

Pode-se dizer que Bloom, quarto álbum do duo norte-americano Beach House é o disco de dream-pop do ano. Depois do bom Teen Dream (2010), Bloom segue caminho parecido, ainda que apostando mais nos sintetizadores, nos vocais fugazes e intensamente bonitos de Victoria Legrand e nas baterias eletrônicas do que seu antecessor. À diferença dos demais da banda, o disco apresenta uma intensidade um tanto escondida que, como o próprio nome traduz, vai se construindo, florescendo, ao longo do álbum. “Lazuli”, “Troublemaker” e “Wishes”, tríade que melhor representa o disco, ainda que não levem a uma inexorável empolgação do ouvinte, são retratos do quase obsessivo cuidado formal realizado na composição de Bloom, produzido por Chris Coady (Yeah Yeah Yeahs e Blonde Redhead). Bloom trata-se de trabalho cuja intensidade é descoberta nos pequenos detalhes: se, à primeira vista parece um álbum eminentemente um tanto otimista e solar, guarda suas surpresas nos tons escuros que marcaram os outros discos do duo. Sustentando-se sobre 10 faixas coerentes, Bloom é de uma delicadeza ímpar. Numa comparação, lembra uma transcendental ida à praia, naqueles dias de sol que, calmamente, vão se apagando.   
   
∆ - An Awesome Wave
“An Awesome Wave”, do quarteto britânico (se pronuncia Alt-J, que é a tecla de atalho no teclado do Mac para a letra grega delta), é, provavelmente, uma das principais surpresas do ano. Formada por estudantes da universidade de Leeds e lembrando a Wild Beasts, a banda de indie rock tem uma sonoridade progressiva, com bases eletrônicas pesadas, algumas batidas típicas de hip hop, baixo de post-punk e mais um tanto. Ainda assim, o disco impressiona pela crueza e pelas músicas grudentas. “Breezeblocks” é, fácil, uma das melhores músicas do ano, junto com “Matilda”. Vale salientar que o álbum é uma das mais recentes provas que a Pitchfork – que deu 4.8 de nota para o disco – anda precisando de uma urgente reformulação. 
Ouça: "Matilda"


Neil Young & Crazy Horse - Psychedelic Pill
Só por “Driftin’ Back”, o petardo de pouco mais de 27 minutos que abre o disco duplo, “Psychedelic Pill”, do composto Neil Young & Crazy Horse, já mereceria ser citado em qualquer lista de melhores do ano. A gigantesca faixa, uma densa viagem psicodélica e hipnótica com pouquíssimas vozes e comandada por estridentes guitarras, apesar de não ter o impacto de hits mais diretos, como os clássicos “Revolution Blues” (74), “Hey, Hey, My My” (78) ou “Cinnamon Girl” (69), relembra passagens instrumentais de algumas das melhores músicas da carreira de Young, como “Cowgirl in the Sand” (69) ou “Down by the River” (69). Assim como indicam essas últimas, feitas também em conjunção com o Crazy Horse, “Psychedelic Pill” é, naturalmente, um poderoso álbum de guitarras. A bagagem da fase áurea do canadense (After the Gold Rush – Harvest - On The Beach) decerto aparece, mas de forma mais perceptível nos vocais e nas letras das nove faixas que compõem os cerca de 80 minutos de “Psychedelic Pill”. “Ramada Inn” e “Walk Like a Giant”, ambas com 16 minutos, respectivamente no primeiro e no segundo discos do álbum duplo, se são musicalmente mais criativas que “Driftin’ Back”, por não ficam presas às amarras em loop da ótima primeira faixa, corroboram a intensa sonoridade roqueira do disco. Já “She’s Always Dancing” é talvez a melhor faixa do disco. Com um fraseado um tanto sobrenatural e nostálgico, o que não parece nada estranho para um cantor de 67 anos, traz três refrões. As guitarras, como era de se esperar de uma reunião do canadense com o Crazy Horse, estão lá, soberanas.