Joana não amava. Dizia que, no meio
do peito, tinha um buraco. Que a caixa torácica era opaca, vazia. “Um erro
genético”. Nascera sem coração e pronto. Conviva-se com isso.
Tinha um olhar oblíquo, enviesado.
À primeira vista, poderiam achar que era estrábica, mas não era. O modo como
olhava que era inclinado, singular, estranho. Olhar para Joana era um exercício
de bravura, tamanha era a intimidação que conseguia impor com aqueles olhos
perfurantes e azuis. O rosto da moça era perfeito, mas transmitia a mesma
sensação de inquietude dos grandes felinos. Qualquer erro de aproximação poderia levar ao pior dos fins.
Tomar contato com aquela entidade
era um desafio ainda sem solução. Muitos tentavam, todos sem sucesso. O mais
cruel era que Joana sabia do próprio poder. Como os impérios mais permanentes,
tinha plena consciência do fascínio e do respeito que despertava. Usava isso a
seu favor, não sem muito exame de consciência. Era uma mulher complexa.
O corpo... bem, melhor não falar
do corpo. Tal qual o monstro ctônico grego com a capacidade de petrificar, ela
destruía pelo olhar. Poucos resistiam.
O convite àqueles braços era
tão insuportável quanto interessante. Isso não quer dizer que, naquele vai-e-vem de
pós-modernidade líquida, a moça conseguisse encontrar sua paz. O coração – a falta
dele – continuava ali, batendo em meio ao peito, pulsando sangue pelas artérias
que transbordavam por aqueles olhos esguios e fantasiosos. A ausência, contudo,
era palavra de ordem.
Paradoxalmente, preencher o
físico era esvaziar a alma. Despedaçado o que havia sobrado dele, o espírito de
Joana era quase invisível, insípido.
Com o passar do tempo, ela foi
percebendo o padrão. Passou a entender que estava fadada a não saciar sua
vontade de paz, pelos desesperos terrenos. Resignava-se que a verdade entoada
deveria ser eterna: não tinha coração e pronto.
Poucos sabiam que, da imagem
dominadora, tal qual a maioria dos Césares, Joana escondia um lado dos mais
frágeis. Era capaz de verter lágrimas como a mais sensível das mulheres e
sorria, às vezes, com o pensamento dos mais amenos. Surpreendia-se com a
possibilidade de fazer coisas mundanas sem que aquilo sobrepujasse sua condição
quase sobre-humana.
Se, no convívio, provocava as
reações mais primitivas daquelas hordas, como o desejo de dominá-la somente por ser
quem era, na introspecção era outra. Assumia a condição de fragmentada e sofria
quieta. Em silêncio. Afinal, revelá-lo seria macular seus traços mais
marcantes. Sem saber, trocava profundidade por insegurança.
Joana não amava porque já amou.
Os grandes amantes são aqueles que, alguma vez, em algum dos tempos, amaram a
si e aos outros. Aquela mulher havia amado com tanta sinceridade, enchido o
peito com tantas expectativas e futurismos que havia perdido seu ar de
divindade. Tornara-se a mais humana das humanas.
Isso, percebeu, a fragilizava. Ao
entregar e escancarar seus versos e olhares mais sinceros, ficava tal qual os
exércitos mais confiantes: abria-se a retaguarda e o espaço para a apunhalada no
calcanhar. No início, ignorava-o – melhor, fazia sem se importar. Depois,
passou a anular-se. Quanto mais amava mais o fazia para fora e não para dentro.
O processo foi minando-a em sua
própria capacidade de amar. Partida, enxergava o mundo exterior e apagava a
própria luz. Até que, como nos maiores romances, desvaneceu. Recebeu a mais
cruel das notícias: estava só.
Com medo de viver consigo, com
aquele espectro de ser humano passível de erros e de sentimentos, encastelou-se na
imagem dos olhos oblíquos. Vestia o manto da superioridade quando, dentro,
existia aquele buraco negro que antes era de um vermelho fogo.
Joana não amava porque tinha
medo.
Um comentário:
Felipe, eu chorei lendo o seu texto, como Joana faz às vezes também: "como a mais sensível das mulheres". Acho que isso aconteceu porque me identifiquei com Joana, de alguma forma... Talvez muitas pessoas (que amaram de verdade) tenham esse lado Joana, esse medo. Esse receio em correr outro risco amando outra vez... Fica sempre parecendo que o amor vai, de todo jeito, frustrar de novo... Até o infinito. E a forma que você descreveu tudo, tanto as expressões quanto os sentimentos ligados a isso foi muito bonita. Muito boa essa leitura porque é um ótimo texto. Ainda acho que tu deves publicar num papel em vez de só num blogue... Bjs.
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