As chamas vermelhas lambiam o telhado de madeira do casarão. Grandes blocos de madeira ruíam e despencavam no meio do decrépito edifício. Barulho de morte. Os pedaços caíam, podres, e traziam consigo um incômodo ensurdecedor. À coloração vermelha do fogo misturavam-se o amarelo e o laranja, um começando no meio do outro, quando o outro nem começava a acabar-se. Como o prédio. As gigantescas estacas de madeira mal iniciavam a queda do tombamento, quando outras, mais rápidas, passavam no meio de seu caminho. Embolavam-se. Um bolero caótico de som e fúria. De inquietação. Depois de alguns minutos nesse torpor sonâmbulo, um vitral eclesiástico partiu-se. Completamente. Ficava na parte mais alta do casarão, na fachada. Como numa igreja. O calor das labaredas tomou conta do ar e o vidro não teve como resistir. Rachou por dentro. Depois se partiu em centenas de pedaços. Barulho de grito de agonia o vidro se partindo. O vitral colorido de verde, vermelho e azul ficou cinza. O vermelho do vidro foi tomado pelo vermelho do fogo. Foi trucidado. A dor das cores foi tão grande que elas implodiram em explosão. Foram cuspidas para fora da fachada. Ao tocarem no chão manifestaram a sua inconsolável tristeza. Gritaram sob a força de vidro. Aquele barulho de corte, de sangue. Vermelho. Como as labaredas. A fumaça escorria pelas paredes que ainda estavam de pé. Perturbava-as. Subia e descia lentamente, como que minando com certo sadismo o equilíbrio bambo. Maltratando. Nada ali era isento. As pernas torpes daquela casa sentiam uma dor incomensurável. Uma dor incompreensível, que nunca sentiremos. Ou talvez sim. O suplício para permanecer de pé era tão grande que as paredes suavam negro. A fumaça metia-se pelos poros abertos daquela estrutura e, com as chamas, forçava até o último suspiro. Dava para ver a sofreguidão. Mas aquele equilibrismo não era eterno. Mais partes incompletas daquele todo ruíam e desmoronavam, secas, no duro chão duro. A dor da queda era comparável à dor da tortura que sentiam. No fundo, seria mais fácil que aceitassem. A dor cessaria e a tortura seria apenas momentânea. Ficaria incrustada na alma, mas deixaria a carne em paz. Mas não foi assim. As partes daquele edifício, em certa resistência inútil e desesperada, tentavam resistir. Ao calor, à fumaça, ao vermelho insaciável. Ninguém sabia o motivo. Mas parecia ser questão de honra. O irônico é que, mesmo assim, aquela fundação sabia que, cedo ou tarde, tombaria. Quis tombar honrosamente, ao menos. Tombou.
Na esquina da frente, um menino franzino e esquelético, só de bermudas e descalço, observava o espetáculo com felicidade indescritível. O calor, tocando-lhe a pele, trazia certo conforto. A fumaça, invasora de corpos, era suportável. O vermelho iluminava seus olhos, refletia em sua retina. Boquiaberto, via aquele monstro desistir de lutar e cair, fulminante, no asfalto derretido.
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