De manhã, me ligaram.
- Alô.
- Aloa, Israel?
- Ligou errado.
- Ah.
Depois de uns três minutos, de novo:
- Alô.
- Aloa, é o Israel quem tá falando?
- Amigo, não tem Israel aqui.
- Aloa? Israel? É Israel?
- Você ligou errado, não tem Israel aqui.
- Ah.
Na terceira vez, vi que era o mesmo número e mudei a voz:
- Alô.
- Aloa, Israel?
- É Israel.
- É Israel?
- É ele.
- Israel, é Julio. Você ainda faz conserto de ar-condicionado? A Márcia me passou seu número.
- Faço sim. Qual o modelo?
- Um pequeno, 7 mil BTUs.
- Da Consul?
- Isso, da Consul
- Da Consul mesmo?
- É, da Consul.
- Branco?
- Branco, de 7 mil BTUs.
- Ah, faço sim. Qual o endereço?
- Rua Mena Barreto, 22.
- Sei onde é.
- Tem ideia de orçamento?
- Preciso ver o aparelho. Vamos marcar para terça-feira?
- Ok.
- Quem fala mesmo?
- É o Julio.
- Até terça, Sr. Julio.
O mundo é mesmo injusto. Eu fui atrapalhado três vezes, o Julio continuará com calor e Israel continua construindo assentamentos nos territórios palestinos.
sexta-feira, 19 de julho de 2013
quarta-feira, 22 de maio de 2013
Incêndio
As chamas vermelhas lambiam o telhado de madeira do casarão. Grandes blocos de madeira ruíam e despencavam no meio do decrépito edifício. Barulho de morte. Os pedaços caíam, podres, e traziam consigo um incômodo ensurdecedor. À coloração vermelha do fogo misturavam-se o amarelo e o laranja, um começando no meio do outro, quando o outro nem começava a acabar-se. Como o prédio. As gigantescas estacas de madeira mal iniciavam a queda do tombamento, quando outras, mais rápidas, passavam no meio de seu caminho. Embolavam-se. Um bolero caótico de som e fúria. De inquietação. Depois de alguns minutos nesse torpor sonâmbulo, um vitral eclesiástico partiu-se. Completamente. Ficava na parte mais alta do casarão, na fachada. Como numa igreja. O calor das labaredas tomou conta do ar e o vidro não teve como resistir. Rachou por dentro. Depois se partiu em centenas de pedaços. Barulho de grito de agonia o vidro se partindo. O vitral colorido de verde, vermelho e azul ficou cinza. O vermelho do vidro foi tomado pelo vermelho do fogo. Foi trucidado. A dor das cores foi tão grande que elas implodiram em explosão. Foram cuspidas para fora da fachada. Ao tocarem no chão manifestaram a sua inconsolável tristeza. Gritaram sob a força de vidro. Aquele barulho de corte, de sangue. Vermelho. Como as labaredas. A fumaça escorria pelas paredes que ainda estavam de pé. Perturbava-as. Subia e descia lentamente, como que minando com certo sadismo o equilíbrio bambo. Maltratando. Nada ali era isento. As pernas torpes daquela casa sentiam uma dor incomensurável. Uma dor incompreensível, que nunca sentiremos. Ou talvez sim. O suplício para permanecer de pé era tão grande que as paredes suavam negro. A fumaça metia-se pelos poros abertos daquela estrutura e, com as chamas, forçava até o último suspiro. Dava para ver a sofreguidão. Mas aquele equilibrismo não era eterno. Mais partes incompletas daquele todo ruíam e desmoronavam, secas, no duro chão duro. A dor da queda era comparável à dor da tortura que sentiam. No fundo, seria mais fácil que aceitassem. A dor cessaria e a tortura seria apenas momentânea. Ficaria incrustada na alma, mas deixaria a carne em paz. Mas não foi assim. As partes daquele edifício, em certa resistência inútil e desesperada, tentavam resistir. Ao calor, à fumaça, ao vermelho insaciável. Ninguém sabia o motivo. Mas parecia ser questão de honra. O irônico é que, mesmo assim, aquela fundação sabia que, cedo ou tarde, tombaria. Quis tombar honrosamente, ao menos. Tombou.
Na esquina da frente, um menino franzino e esquelético, só de bermudas e descalço, observava o espetáculo com felicidade indescritível. O calor, tocando-lhe a pele, trazia certo conforto. A fumaça, invasora de corpos, era suportável. O vermelho iluminava seus olhos, refletia em sua retina. Boquiaberto, via aquele monstro desistir de lutar e cair, fulminante, no asfalto derretido.
Na esquina da frente, um menino franzino e esquelético, só de bermudas e descalço, observava o espetáculo com felicidade indescritível. O calor, tocando-lhe a pele, trazia certo conforto. A fumaça, invasora de corpos, era suportável. O vermelho iluminava seus olhos, refletia em sua retina. Boquiaberto, via aquele monstro desistir de lutar e cair, fulminante, no asfalto derretido.
quinta-feira, 9 de maio de 2013
A mulher que não amava
Joana não amava. Dizia que, no meio
do peito, tinha um buraco. Que a caixa torácica era opaca, vazia. “Um erro
genético”. Nascera sem coração e pronto. Conviva-se com isso.
Tinha um olhar oblíquo, enviesado.
À primeira vista, poderiam achar que era estrábica, mas não era. O modo como
olhava que era inclinado, singular, estranho. Olhar para Joana era um exercício
de bravura, tamanha era a intimidação que conseguia impor com aqueles olhos
perfurantes e azuis. O rosto da moça era perfeito, mas transmitia a mesma
sensação de inquietude dos grandes felinos. Qualquer erro de aproximação poderia levar ao pior dos fins.
Tomar contato com aquela entidade
era um desafio ainda sem solução. Muitos tentavam, todos sem sucesso. O mais
cruel era que Joana sabia do próprio poder. Como os impérios mais permanentes,
tinha plena consciência do fascínio e do respeito que despertava. Usava isso a
seu favor, não sem muito exame de consciência. Era uma mulher complexa.
O corpo... bem, melhor não falar
do corpo. Tal qual o monstro ctônico grego com a capacidade de petrificar, ela
destruía pelo olhar. Poucos resistiam.
O convite àqueles braços era
tão insuportável quanto interessante. Isso não quer dizer que, naquele vai-e-vem de
pós-modernidade líquida, a moça conseguisse encontrar sua paz. O coração – a falta
dele – continuava ali, batendo em meio ao peito, pulsando sangue pelas artérias
que transbordavam por aqueles olhos esguios e fantasiosos. A ausência, contudo,
era palavra de ordem.
Paradoxalmente, preencher o
físico era esvaziar a alma. Despedaçado o que havia sobrado dele, o espírito de
Joana era quase invisível, insípido.
Com o passar do tempo, ela foi
percebendo o padrão. Passou a entender que estava fadada a não saciar sua
vontade de paz, pelos desesperos terrenos. Resignava-se que a verdade entoada
deveria ser eterna: não tinha coração e pronto.
Poucos sabiam que, da imagem
dominadora, tal qual a maioria dos Césares, Joana escondia um lado dos mais
frágeis. Era capaz de verter lágrimas como a mais sensível das mulheres e
sorria, às vezes, com o pensamento dos mais amenos. Surpreendia-se com a
possibilidade de fazer coisas mundanas sem que aquilo sobrepujasse sua condição
quase sobre-humana.
Se, no convívio, provocava as
reações mais primitivas daquelas hordas, como o desejo de dominá-la somente por ser
quem era, na introspecção era outra. Assumia a condição de fragmentada e sofria
quieta. Em silêncio. Afinal, revelá-lo seria macular seus traços mais
marcantes. Sem saber, trocava profundidade por insegurança.
Joana não amava porque já amou.
Os grandes amantes são aqueles que, alguma vez, em algum dos tempos, amaram a
si e aos outros. Aquela mulher havia amado com tanta sinceridade, enchido o
peito com tantas expectativas e futurismos que havia perdido seu ar de
divindade. Tornara-se a mais humana das humanas.
Isso, percebeu, a fragilizava. Ao
entregar e escancarar seus versos e olhares mais sinceros, ficava tal qual os
exércitos mais confiantes: abria-se a retaguarda e o espaço para a apunhalada no
calcanhar. No início, ignorava-o – melhor, fazia sem se importar. Depois,
passou a anular-se. Quanto mais amava mais o fazia para fora e não para dentro.
O processo foi minando-a em sua
própria capacidade de amar. Partida, enxergava o mundo exterior e apagava a
própria luz. Até que, como nos maiores romances, desvaneceu. Recebeu a mais
cruel das notícias: estava só.
Com medo de viver consigo, com
aquele espectro de ser humano passível de erros e de sentimentos, encastelou-se na
imagem dos olhos oblíquos. Vestia o manto da superioridade quando, dentro,
existia aquele buraco negro que antes era de um vermelho fogo.
Joana não amava porque tinha
medo.
segunda-feira, 25 de março de 2013
Ausência
Acordou e, como fazia todas as manhãs, esticou o braço
esquerdo à procura. A pele tocou o travesseiro fofo e ali ficou. Não houve
contato humano. Estranhou. Normalmente ela o acordava com um beijo antes de
sair da cama. Abriu os olhos o mais rápido que o normal e bagunçou ainda mais
os cabelos, numa tentativa um tanto desajeitada de acordar sem a presença dela.
Não sabia como fazer. Permanecia em um estado de incômodo torpor com o qual não
sabia lidar. A lentidão o fez se movimentar. Saltou da cama vagorosamente e
olhou as cortinas. Estavam fechadas. Normalmente ela abria as cortinas antes de
sair da cama. A escuridão tomava conta do quarto e o escondia em penumbra,
impedindo que olhasse com precisão as coisas em volta. Talvez a mulher ainda
estivesse ali.
- Ana...
Silêncio.
À falta de resposta, continuou o movimento de renascimento
diário e colocou uma bermuda. Calçou os chinelos gastos azuis e passou a mão na
cara carcomida pela barba, indagando a incompletude do cenário. Um ato falho,
não terminado. Não entendia, apesar do esforço. O mais estranho: o outro lado
da cama estava completamente organizado, límpido, como se ninguém tivesse usado
aquele espaço. O espaço da cumplicidade. Ficou, ainda no escuro, tento contato
com aquela superfície da cama, passando a ponta dos dedos, no branco do lençol,
numa tentativa vã de transformá-lo em cabelos, em cílios, em pele. Uma
sequência dolorosa de frustrações.
Dali, sem abrir a cortina, sem desligar o gélido ar
condicionado, seguiu para o banheiro. Abriu a porta numa pequena esperança.
Achava que Ana poderia estar lhe fazendo uma surpresa, escondida em algum
cômodo. Não que ela já tenha feito isso antes. Abriu a porta, pé-ante-pé.
Ninguém. Água no entorno da pia e a tampa do vaso sanitário levantada.
Normalmente a tampa do vaso ficava fechada, ela não gostava daquilo. Era de uma
organização ímpar. Ele, o oposto.
Olhou-se no espelho. Barba, cabelos, dentes. Uma multidão de
imperfeições e desencontros biológicos à sua frente. Ficou se olhando por
alguns segundos. Encheu as mãos de água fria e jogou nos olhos. Só nos olhos,
pois acreditava que só os olhos eram necessários para se acordar. Ignorou o
resto do rosto. Em seguida, olhou, um tanto atordoado, para um pequeno copo
onde ficavam as escovas de dente. Ali, só uma escova: azul. A outra, laranja, desaparecida.
Abriu a gaveta embaixo da pia. Toalhas. Abriu o blindex. Um xampú e um
sabonete. Normalmente eram vários. E condicionador. Escovou os dentes com uma
lentidão incomum, tentando racionalizar a falta. Era a instituicionalização da
ausência tomando forma.
Foi até a cozinha. Normalmente, sentia o cheiro do café
ainda no corredor. Ela, diurna e ativa, costumava acordar mais cedo e preparar
o café. Ele, criatura da noite, demorava a se acostumar com hábitos tão primitivos;
ela, contudo, o havia feito perceber vida antes das 18h. Naquele dia não havia
café, torradas, frutas, nada. A cozinha estava impecável, mármore, fórmica
branca, pia de metal. Na geladeira, nenhum recado. A foto que costumava ficar
ali, dos dois, sorridentes, em viagem, só costumava. E não parecia que foi
arrancada. Situava-se sob um ímã de morango, gordo e redondo. O ímã continuava
ali, instigante, vermelho. A foto, não.
Abriu o armário. A geladeira. A gaveta dos talheres. Abriu
tudo com certa calma irritante. Procurava algo que o reconfortasse. Achou café,
pão e garfos. Fez o café e uma torrada. Dirigiu-se à sala, com uma dor que
começava a questionar a até então dominante calma. Era uma sensação falsa,
sonsa. Ele lembrava da analista, que dizia que fazer aquilo era costume de quem
sentia uma raiva incomensurável das coisas. Talvez. Olhou em volta na sala, o
jornal do dia anterior estendido sobre o sofá, aberto em alguma seção
igualmente desinteressante e insípida. Olhou a data: quarta-feira. Normalmente
comprava o jornal junto com Ana, depois de tomarem o café preto de todos os
dias.
Ao fim do café, pendurado no parapeito da janela, uma dor
esfuziante começava a tomar conta de seu peito. O vazio daquele cômodo era suportável.
O do incômodo, não. Fazia um calor sufocante e, mesmo assim, havia pouca luz.
Tentava rememorar o que poderia haver ocorrido. Na sua cabeça, pouco se
passava. A sensação de luto era a maior de todas, parecia-lhe impossível lidar.
Um eterno enterro. Fechou os olhos com força. Ficou assim alguns segundos. Um
minuto, talvez. Abriu. A sala continuava idêntica. Ligou para Ana. Sem
resposta. Tornou a ligar. Ausência.
Mais agitado, retornou ao quarto. Abriu o armário, viu muitos
vestidos. Alguns ainda tinham o seu cheiro. Muitos coloridos. Outros não.
Abraçou os que não tinham o cheiro. Lembravam menos ainda a mulher. Apertou-os
com tanta força contra si que chorou. Tentou, de novo, rememorar o possível
motivo do desaparecimento. Não conseguia conceber.
Voltou para a sala. Sentou-se em uma cadeira elevada –
daquelas de bar – e ficou olhando pela janela, sentindo o abafado, como se
esperasse poder ser levado da mesma forma que ela. Ficou assim vários momentos,
um tanto imóvel, um luto de perda da outra metade da cama.
Em meio ao transe, um barulho de fechadura. Pensou ser parte
do delírio e continou de olhos fechados, como que ainda sonâmbulo. Doutro lado
da porta, Ana, com o jornal e flores.
- Oi, meu amor.
quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013
Para ver a banda passar
A banda tocava, um tanto enfurecida, sob luzes faiscantes
e quentes, os braços da plateia, que se jogava de um lado para o outro, em um
balanço de mar, pés soltos na areia do tablado, olhos vidrados naquela
adulação sonora. Em meio àquela multidão hipnotizada, havia um olhar distinto. Um
olhar que, curioso, não olhava o palco, não mirava a mesma direção das milhares
de retinas vizinhas. Focava-se, ao contrário, em um outro olhar. Os olhos um
tanto esverdeados daquele rosto visavam outros, castanhos, sorridentes,
pequenos, paralisados. A mulher ignorava solenemente o que se passava ao redor e se
fixava, em meio à massa humana, àqueles olhos, barba, dentes, nariz. Enquanto o
mundo se movia, pés saltitavam e dancinhas proliferavam, os olhos dela tinham
apenas um destino. Um abrigo reconfortante, quente, cálido. O interessante é que
era ela quem gostava da música. Estava mais do que claro que ela que o trouxe
para o show. Não fosse ela, poder-se-ia apostar o quanto fosse, ele ali não
estaria. Certeza. Os sorrisos dele não eram o clarão de felicidade de quem
vivencia uma experiência auditiva. Era outro sentimento. Ne sais quoi. À medida que as
músicas iam sendo trabalhadas e construídas em meio a uma aura densa, etérea,
sonhadora, ela pairava no ar olhando para ele. Estava de costas para o palco. O
tempo inteiro. Ela cantava todas as músicas, mesmo as instrumentais, mas ignorava
os músicos. Eles eram parte de um espetáculo privado, uma trilha sonora de
fundo para um abraço que ela procurava – e causava. Em dado momento, a coisa
beirou o ridículo. Chegou ao cúmulo de dançarem de mãos dadas, como que numa
valsa, em um baile de guitarras e xilofones. Aquilo irritou um bocado de gente.
Deu pra perceber. O casal dançava de um lado para o outro, cercado de olhos e
ouvidos atentos, numa comunhão tão íntima que tudo levava a crer que eram os
outros os intrusos. Estavam atrapalhando uma das mais doces entregas, um bailar
esquisito e desconcertado. Depois, ela (sempre ela!), passou a fingir que o
ignorava – isso olhando para ele – só para ter certeza que ele ficaria
perturbado com aquilo. Ele fingia ficar. Depois dos segundos de bobeira, os
dois voltavam a se abraçar. O mundo acabava nos metros quadrados no entorno. Não
era importante. A música funcionava somente como pano de fundo de um encontro há tanto
esperado. Ou não: o amor é
negócio tão imprevisível que talvez eles tenham se visto há vinte minutos. O fato é que aquilo continuou durante toda a apresentação. Contaram-se
os minutos em que ela olhou para frente. Uns dez? Talvez menos. O show dela
era outro. Ele, coitado, não fazia questão de estar ali. Já que estava – por causa
dela, claro – tentava fazê-la sentir-se única. O rapaz era esforçado, reconhece-se. Abraçava,
rodopiava, metia as mãos naqueles quadris finos, mexia os cabelos pretos
ondulados, dizia coisas no ouvido... Tinha uma mania incomum de segurar as
orelhas dela. O fato é que ele, ao contrário dela, não entendia ou conhecia
quem tocava. Um minuto de observação e isso ficava mais do que claro. O modo
como olhava para o palco era inseguro, aquela insegurança típica de quem está
vendo algo novo. Mas ele gostava do que via. Gostava por que ela estava feliz. Mas ignorava
a banda. Ponto. Isso não tem discussão. Ele poderia estar em qualquer lugar que
a reação seria a mesma. O irônico é que era ele, que não conhecia
aquele turbilhão de instrumentos marcianos, que estava voltado para o palco. O amor
é injusto. Ela, certamente a culpada pela ida, trocava um show pelo
outro. Ou ficava pela metade em cada um. A verdade é que
parecia não se importar com o que “perdia”. O outro lado era mais
significativo.
quinta-feira, 24 de janeiro de 2013
Crônica de um amor perpétuo
Nunca esqueci o dia em que, menino,
vi, pela primeira vez, de perto, um caboclo de lança. Foi no Centro do Recife,
próximo ao mercado de São José. Vestida com a “gola”, a indumentária feita de
lantejoulas coloridas cuidadosamente instaladas como uma armadura, aquela
entidade amarela, azul e vermelha segurava uma enorme lança de madeira com firmeza
digna de fé. Na boca, a flor característica e os lábios cerrados em uma
seriedade assustadora. Vi a cena com curiosidade e certo receio. Meu pai tentou
me explicar o que se passava. Lembro que não conseguiu. Ninguém conseguiria. Era fevereiro, nas
semanas anteriores à festa mais bonita e sincera de todas.
Com o passar dos
anos, de uma infeliz rejeição e incompreensão, minha relação com o carnaval
tornou-se necessária. A primeira vez que subi as ladeiras de Olinda, em um
sábado de Galo da Madrugada, e vi a força das infinitas cores do sítio histórico,
as percepções mudaram definitivamente. As incontáveis orquestras de frevo, os
caboclinhos, cirandas e troças acompanhando o cortejo de fantasias e
mascarados, os incontáveis sorrisos e abraços de encontro e reencontro, a identificação
de realmente pertencer àquele lugar organizado em uma desordem absoluta. Os
braços para o alto, como antenas apontando para o céu, acompanhados de pés que
levitam, na catarse de “Vassourinhas” e dos confetes e serpentinas do Elefante.
Os históricos casarões portugueses sendo tomados pela turba mais alucinada, a
cordialidade de Holanda personificada naqueles rostos queimados do sol do
trópico. Não mais hostil, mas acolhedor, um abraço quente e denso na interminável festa
que, se dura da sexta-feira à acachapante quarta-feira de cinzas, permanece no
peito durante o decurso do ano. Baco, sacana, inegável dizer, foi muito feliz. Nos
enfeitiçou, de forma perpétua: nas alfaias, trombones, estandartes, clarins e
personas. Essas, se durante as quatro estações vestimos dissimuladamente, todos
os dias, preferimos, quando estamos na mais etérea e singular massa humana, escancará-las,
despir-nos das máscaras do cotidiano para vestirmos outras, menos embrutecidas
e dissimuladas.
O carnaval, como a fé daquele caboclo, é sincero. Ali, a nossa
felicidade é a maior de todas. A tristeza também. A tristeza somente como saudade,
exílio, porque não há espaço para a dor em meio à celebração. Os deuses, sábios
entendedores da alma humana, não permitiriam. Amar o carnaval é amar a própria história; não se trata de uma simples “festa”, mas, ao contrário, da identificação com a origem. É um relacionamento
imaterial, intenso, perpétuo, com a mais bela e fiel das mulheres. Porque quem
gosta de carnaval gosta para sempre. É a festa pagã que mais representa o sonho
católico: “sejam felizes para sempre”. E serão.
De pequeno, no mercado de São
José, à altura de barbas escorrendo pelo rosto, como agora, nunca houve brigas,
separações, desentendimentos. Os distanciamentos, é verdade, doem. A saudade é
parte dessa equação eterna, que começou ali, na vista daquela figura mística,
parte do maracatu rural, envolta em um mistério ainda sem solução. A colorida imagem
daquele caboclo de lança, tenho a impressão, acompanha minhas andanças nos dias
de Momo até hoje. É o inexplicável espírito do carnaval.
quarta-feira, 9 de janeiro de 2013
O Som ao Redor (de uma cidade incompleta)
Normalmente, a experiência
cinematográfica ganha força superior quando o espectador consegue criar uma conexão
identitária, nostálgica ou ideológica com a obra. Uma interação extrassensorial
que extrapola o senso comum ou mesmo o que se passa durante o tempo de exibição
da película.
Nas minhas quatro horas e vinte e
dois minutos de O Som ao Redor, o significado do filme de Kleber Mendonça Filho
engrandeceu-se tanto ou mais que os conflitos que suas personagens enfrentam. Na
segunda, mais do que na primeira vez, os silêncios e os significados ocultos do
filme passaram a reverberar com mais força.
Sou pernambucano. Nasci no Recife,
numa segunda-feira de junho de 1986. Nesse fatídico dia, a União Soviética
vencia o Canadá e a França goleava a Hungria. Era ano de Copa do Mundo. Dias
mais tarde, eu na incubadora, com fios de ficção científica na cabeça,
o Brasil de José Sarney perderia para a mesma França numa indigesta e inesquecível
disputa de pênaltis.
Mais de 26 anos passaram-se e
muitas mudanças vieram. Em mim e no Recife. Ao mesmo tempo, vendo a cidade no
último mês, pouca coisa mudou. Do bairro da Encruzilhada, onde nasci, para a
eterna casa dos meus avós, no Hipódromo, e para minhas últimas moradas na
Nassau, em Boa Viagem, onde se passa o filme, o intervalo de tempo trouxe
mudanças indeléveis, mas que guardam o mesmo substrato. A clínica de
acupuntura, o curso de inglês e a quadra da praia, que eu frequentei por mais
de quatro anos, continuam lá. Mas a mudança de que trata o filme vai muito além.
A máxima de Giuseppe di
Lampedusa, autor de “O Leopardo”, mais tarde transformado em filme por
Visconti, de que “as coisas precisam mudar para que permaneçam iguais”, é a
alegoria dos tempos hodiernos. “O Som ao Redor” fala disso.
Fala de um tempo que vem se
esvaindo, por um matiz civilizatório e urbano, com vernizes de verticalização,
concreto armado e pisos de cerâmica. Ocorre que, nesse processo, as cicatrizes
do passado – minhas, suas, das personagens do filme – permanecem lá, prontas
para serem remexidas.
O Recife é uma dessas personagens.
Da “Casa-Grande & Senzala”, de Gilberto Freyre, com sua tão combalida tese
de convivência harmoniosa entre as três raças conformadoras da identidade
brasileira, até a investigação sociológica de Sérgio Buarque de Holanda em “Raízes
do Brasil”, Pernambuco conserva tradições, medos, incompletudes. Uma história
inconclusa de uma cidade que se reconstrói. A cidade dos demiurgos que vem, aos
poucos, tendo sua identidade transmudada.
Aos poucos sendo comida por
gigantes de ferro e de aço, os arrogantes “edifícios de 40 andares, com olhos
de vidro e cores berrantes”, narrados por Siba, a Recife que visitei recentemente é sinal do
“progresso” por qual passa o país. A evolução dos tempos não nega: nasci em um
apartamento de três andares; vivi até os quatro anos em uma casa de vila no
bairro do Hipódromo, com grades brancas e muro de musgo, iguais aos da Setúbal
passada de “O Som ao Redor”; e, na minha última vivência na cidade, morei em
dois prédios. Dois arrogantes de olhos de vidro e corpo de aço, ladrões do sol
das areias da praia de Boa Viagem.
Sair da cidade que amamos tem
dessas coisas. O distanciamento das origens, assim como acontece com o amor,
ajuda-nos a compreender melhor os fatos e as mudanças. Em 1990, mudei-me para o
Rio de Janeiro. Em 2004, voltei ao Recife. Ao longo desse tempo, visitava, ao
menos uma vez por ano, a cidade. As transformações eram brutais. Muito do que lembro
daquele quintal do Hipódromo é facilmente reconhecível por vários
contemporâneos meus da cidade dos rios, canais e mau-cheiro, e presente, ainda que cada
vez menos, hoje: os corações-de-nego; o futebol no meio da rua, como os
meninos da Setúbal de Kleber Mendonça Filho; o entregador de sorvetes que
passava com um sino; os “bom dia” na rua; o vendedor de caldo de cana; os
carroceiros; os banquinhos de cimento em que ficavam os senhores e as senhoras
da rua Martins Ribeiro; os cachorros que atormentavam meus avós dia e noite.
Esses acontecimentos marcaram
minha infância e meu presente. Em 2007, meus avós se mudaram do Hipódromo, por
razões que não convêm explicitar aqui. Hoje, como acontece com grande parte da
Recife que conheci, moram em edifício. Depois que saíram, nunca tiveram coragem
de voltar àquela casa de muro musgo e grades brancas. A última notícia que tive
é que está à venda. Como o bairro é tombado, a casa não pode ser demolida para
dar lugar a um edifício. Linda, continua lá, vazia. Ao lado dela, suas vizinhas
enfeitam-se com mais e mais arames farpados, cercas eletrônicas e cachorros à
prova de som.
As pessoas vêm verticalizando o
Recife. As relações ficam verticalizadas. O fenômeno ajuda a manter a
incompletude dessa modernidade impiedosa. Acho que o filme de Kleber fala, um
tanto, da saudade de um tempo que, ainda que permaneça, vem sendo consumido. O
medo, sentimento que percorre impiedosamente toda a narrativa, não é só físico,
mas também é medo de perder as memórias. Trata-se de um questionamento real e
pertinente do cotidiano dos recifenses, que, é notório, não é coincidência. Numa
das cenas mais bonitas de “Era uma Vez Eu, Verônica”, de Marcelo Gomes, a
personagem de Hermila Guedes leva o pai doente, interpretado por J.W. Solha,
para rever a antiga casa onde morara. Um pedaço do passado que, assim como as muitas
casas do Arruda, Torreão e Setúbal, só para citarmos alguns bairros, vêm
desaparecendo.
Curioso notar como esse mesmo
J.W. Solha mantém uma relação diametralmente oposta com a terra e a propriedade
como o Francisco de “O Som ao Redor”. De personagem fragilizado no filme de
Gomes, é, na obra de Kleber, o retrato do coronelismo latente que ainda paira,
como penumbra, nas relações sociais pernambucanas. Uma aristocracia decadente,
falida moralmente, mas que preserva relações hierárquicas, marcadas pelo mandonismo
e pelo preconceito.
Dono de engenho na Zona da Mata
pernambucana, ele também monopoliza as terras que hoje dão espaço aos espigões
da porção sul do Recife. Quem tem a terra tem o poder. Moral, pecuniário e
social. Como os arcaicos senhores de terras da Pernambuco do século XVI, em que
os “homens bons” eram os que mantinham rendas “enraizadas” em terra e domínio
político, Francisco mantém séquitos de empregados, devidamente diferenciados
pela cor da pele, e uma silenciosa ascensão simbólica sobre os demais.
Naquele espaço público, como em
muito do que ocorre no atual debate imobiliário pernambucano, o privado
sobressai-se. Nisso, a reflexão de “O Som ao Redor” é importante: privatizam-se
os espaços físicos, mas, mais do que isso, as relações humanas.
De cerca de um ano para cá, sinto
que vem surgindo um novo momento de reflexão acerca da cidade. Do Recife como
um organismo vivo que vem morrendo como era e dando espaço a um outro,
metamorfoseado e desconhecido. Assusta. O debate público sobre essa questão,
refletido aqui no cinema, suscita problemas que a vida política não conseguiu
dar seguimento.
De fato, desde 2004, quando
voltei ao Recife, até 2008, quando me mudei, fui imerso por um cotidiano caótico
e pela “normalização” de um processo de destruição do passado. Paradoxalmente,
essa destruição do passado ocorre com a preservação de inúmeras características
que vemos no “homem cordial” de Buarque de Holanda ou nos “donos do poder” de Raimundo Faoro.
Muito disso, mascarado no “orgulho” – que também sinto – de ser pernambucano.
Com essas transformações, e a
perda das referências que nos tornam o que somos, surge um medo sufocador e
nauseante que compartilha a rotina com os recifenses. Fiz muitas coberturas
policiais por um certo período e vi coisas inimagináveis. Os seguranças e
moradores da Setúbal de “O Som ao Redor” veem pouco nas duas horas e onze
minutos de filme. Mas o fato é que não precisam vê-lo, assim, escancarado. O
medo, característica indelével do habitante do Recife atual, perpassa as
relações sociais, o receio pela cor da pele, pela origem social, pelo passado
de sobrenome, pelas posses.
Kleber Mendonça Filho lida com
esses incômodos monstros de forma silenciosa. Pelo silêncio, trata da paranoia
da classe média em um país-continente que, assim como a cidade de seu filme, vem
mudando radicalmente desde a última década. Como que em uma crônica de costumes,
mostra sequências que, aparentemente um tanto banais, guardam significado mais
amplo. Talvez por causa disso venha provocando tamanho debate e despertado
tanto interesse. Mostra um Recife perdido entre o passado e o presente, sem saber que futuro terá. Por tantas razões, é um filme que deve ser visto e divulgado. Como grande obra
que é, pensa tempos aterrorizantes – e interessantes.
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