domingo, 4 de agosto de 2013

prazo

"nascemos com um prazo limitado para interpretar o mundo. fazemos o que podemos. o legado de todos que nos precederam nesse esforço pode ajudar ou confundir, e em última instância ninguém nunca prova nada. atribuir um propósito superior a um lance qualquer da vida é construir uma ficção muito pessoal. dar sentido ao mundo é um ato criativo. uma visão de mundo é uma narrativa".

sexta-feira, 19 de julho de 2013

É Israel?

De manhã, me ligaram.
- Alô.
- Aloa, Israel?
- Ligou errado.
- Ah.

Depois de uns três minutos, de novo:
- Alô.
- Aloa, é o Israel quem tá falando?
- Amigo, não tem Israel aqui.
- Aloa? Israel? É Israel?
- Você ligou errado, não tem Israel aqui.
- Ah.

Na terceira vez, vi que era o mesmo número e mudei a voz:
- Alô.
- Aloa, Israel?
- É Israel.
- É Israel?
- É ele.
- Israel, é Julio. Você ainda faz conserto de ar-condicionado? A Márcia me passou seu número.
- Faço sim. Qual o modelo?
- Um pequeno, 7 mil BTUs.
- Da Consul?
- Isso, da Consul
- Da Consul mesmo?
- É, da Consul.
- Branco?
- Branco, de 7 mil BTUs.
- Ah, faço sim. Qual o endereço?
- Rua Mena Barreto, 22.
- Sei onde é.
- Tem ideia de orçamento?
- Preciso ver o aparelho. Vamos marcar para terça-feira?
- Ok.
- Quem fala mesmo?
- É o Julio.
- Até terça, Sr. Julio.

O mundo é mesmo injusto. Eu fui atrapalhado três vezes, o Julio continuará com calor e Israel continua construindo assentamentos nos territórios palestinos.

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Incêndio

As chamas vermelhas lambiam o telhado de madeira do casarão. Grandes blocos de madeira ruíam e despencavam no meio do decrépito edifício. Barulho de morte. Os pedaços caíam, podres, e traziam consigo um incômodo ensurdecedor. À coloração vermelha do fogo misturavam-se o amarelo e o laranja, um começando no meio do outro, quando o outro nem começava a acabar-se. Como o prédio. As gigantescas estacas de madeira mal iniciavam a queda do tombamento, quando outras, mais rápidas, passavam no meio de seu caminho. Embolavam-se. Um bolero caótico de som e fúria. De inquietação. Depois de alguns minutos nesse torpor sonâmbulo, um vitral eclesiástico partiu-se. Completamente. Ficava na parte mais alta do casarão, na fachada. Como numa igreja. O calor das labaredas tomou conta do ar e o vidro não teve como resistir. Rachou por dentro. Depois se partiu em centenas de pedaços. Barulho de grito de agonia o vidro se partindo. O vitral colorido de verde, vermelho e azul ficou cinza. O vermelho do vidro foi tomado pelo vermelho do fogo. Foi trucidado. A dor das cores foi tão grande que elas implodiram em explosão. Foram cuspidas para fora da fachada. Ao tocarem no chão manifestaram a sua inconsolável tristeza. Gritaram sob a força de vidro. Aquele barulho de corte, de sangue. Vermelho. Como as labaredas. A fumaça escorria pelas paredes que ainda estavam de pé. Perturbava-as. Subia e descia lentamente, como que minando com certo sadismo o equilíbrio bambo. Maltratando. Nada ali era isento. As pernas torpes daquela casa sentiam uma dor incomensurável. Uma dor incompreensível, que nunca sentiremos. Ou talvez sim. O suplício para permanecer de pé era tão grande que as paredes suavam negro. A fumaça metia-se pelos poros abertos daquela estrutura e, com as chamas, forçava até o último suspiro. Dava para ver a sofreguidão. Mas aquele equilibrismo não era eterno. Mais partes incompletas daquele todo ruíam e desmoronavam, secas, no duro chão duro. A dor da queda era comparável à dor da tortura que sentiam. No fundo, seria mais fácil que aceitassem. A dor cessaria e a tortura seria apenas momentânea. Ficaria incrustada na alma, mas deixaria a carne em paz. Mas não foi assim. As partes daquele edifício, em certa resistência inútil e desesperada, tentavam resistir. Ao calor, à fumaça, ao vermelho insaciável. Ninguém sabia o motivo. Mas parecia ser questão de honra. O irônico é que, mesmo assim, aquela fundação sabia que, cedo ou tarde, tombaria. Quis tombar honrosamente, ao menos. Tombou.

Na esquina da frente, um menino franzino e esquelético, só de bermudas e descalço, observava o espetáculo com felicidade indescritível. O calor, tocando-lhe a pele, trazia certo conforto. A fumaça, invasora de corpos, era suportável. O vermelho iluminava seus olhos, refletia em sua retina. Boquiaberto, via aquele monstro desistir de lutar e cair, fulminante, no asfalto derretido.

quinta-feira, 9 de maio de 2013

A mulher que não amava



Joana não amava. Dizia que, no meio do peito, tinha um buraco. Que a caixa torácica era opaca, vazia. “Um erro genético”. Nascera sem coração e pronto. Conviva-se com isso. 

Tinha um olhar oblíquo, enviesado. À primeira vista, poderiam achar que era estrábica, mas não era. O modo como olhava que era inclinado, singular, estranho. Olhar para Joana era um exercício de bravura, tamanha era a intimidação que conseguia impor com aqueles olhos perfurantes e azuis. O rosto da moça era perfeito, mas transmitia a mesma sensação de inquietude dos grandes felinos. Qualquer erro de aproximação poderia levar ao pior dos fins.

Tomar contato com aquela entidade era um desafio ainda sem solução. Muitos tentavam, todos sem sucesso. O mais cruel era que Joana sabia do próprio poder. Como os impérios mais permanentes, tinha plena consciência do fascínio e do respeito que despertava. Usava isso a seu favor, não sem muito exame de consciência. Era uma mulher complexa.

O corpo... bem, melhor não falar do corpo. Tal qual o monstro ctônico grego com a capacidade de petrificar, ela destruía pelo olhar. Poucos resistiam. 

O convite àqueles braços era tão insuportável quanto interessante. Isso não quer dizer que, naquele vai-e-vem de pós-modernidade líquida, a moça conseguisse encontrar sua paz. O coração – a falta dele – continuava ali, batendo em meio ao peito, pulsando sangue pelas artérias que transbordavam por aqueles olhos esguios e fantasiosos. A ausência, contudo, era palavra de ordem.

Paradoxalmente, preencher o físico era esvaziar a alma. Despedaçado o que havia sobrado dele, o espírito de Joana era quase invisível, insípido. 

Com o passar do tempo, ela foi percebendo o padrão. Passou a entender que estava fadada a não saciar sua vontade de paz, pelos desesperos terrenos. Resignava-se que a verdade entoada deveria ser eterna: não tinha coração e pronto.

Poucos sabiam que, da imagem dominadora, tal qual a maioria dos Césares, Joana escondia um lado dos mais frágeis. Era capaz de verter lágrimas como a mais sensível das mulheres e sorria, às vezes, com o pensamento dos mais amenos. Surpreendia-se com a possibilidade de fazer coisas mundanas sem que aquilo sobrepujasse sua condição quase sobre-humana. 

Se, no convívio, provocava as reações mais primitivas daquelas hordas, como o desejo de dominá-la somente por ser quem era, na introspecção era outra. Assumia a condição de fragmentada e sofria quieta. Em silêncio. Afinal, revelá-lo seria macular seus traços mais marcantes. Sem saber, trocava profundidade por insegurança. 

Joana não amava porque já amou. Os grandes amantes são aqueles que, alguma vez, em algum dos tempos, amaram a si e aos outros. Aquela mulher havia amado com tanta sinceridade, enchido o peito com tantas expectativas e futurismos que havia perdido seu ar de divindade. Tornara-se a mais humana das humanas.
Isso, percebeu, a fragilizava. Ao entregar e escancarar seus versos e olhares mais sinceros, ficava tal qual os exércitos mais confiantes: abria-se a retaguarda e o espaço para a apunhalada no calcanhar. No início, ignorava-o – melhor, fazia sem se importar. Depois, passou a anular-se. Quanto mais amava mais o fazia para fora e não para dentro. 

O processo foi minando-a em sua própria capacidade de amar. Partida, enxergava o mundo exterior e apagava a própria luz. Até que, como nos maiores romances, desvaneceu. Recebeu a mais cruel das notícias: estava só. 

Com medo de viver consigo, com aquele espectro de ser humano passível de erros e de sentimentos, encastelou-se na imagem dos olhos oblíquos. Vestia o manto da superioridade quando, dentro, existia aquele buraco negro que antes era de um vermelho fogo.

Joana não amava porque tinha medo.

segunda-feira, 25 de março de 2013

Ausência



Acordou e, como fazia todas as manhãs, esticou o braço esquerdo à procura. A pele tocou o travesseiro fofo e ali ficou. Não houve contato humano. Estranhou. Normalmente ela o acordava com um beijo antes de sair da cama. Abriu os olhos o mais rápido que o normal e bagunçou ainda mais os cabelos, numa tentativa um tanto desajeitada de acordar sem a presença dela. Não sabia como fazer. Permanecia em um estado de incômodo torpor com o qual não sabia lidar. A lentidão o fez se movimentar. Saltou da cama vagorosamente e olhou as cortinas. Estavam fechadas. Normalmente ela abria as cortinas antes de sair da cama. A escuridão tomava conta do quarto e o escondia em penumbra, impedindo que olhasse com precisão as coisas em volta. Talvez a mulher ainda estivesse ali.

- Ana... 

Silêncio. 

À falta de resposta, continuou o movimento de renascimento diário e colocou uma bermuda. Calçou os chinelos gastos azuis e passou a mão na cara carcomida pela barba, indagando a incompletude do cenário. Um ato falho, não terminado. Não entendia, apesar do esforço. O mais estranho: o outro lado da cama estava completamente organizado, límpido, como se ninguém tivesse usado aquele espaço. O espaço da cumplicidade. Ficou, ainda no escuro, tento contato com aquela superfície da cama, passando a ponta dos dedos, no branco do lençol, numa tentativa vã de transformá-lo em cabelos, em cílios, em pele. Uma sequência dolorosa de frustrações. 

Dali, sem abrir a cortina, sem desligar o gélido ar condicionado, seguiu para o banheiro. Abriu a porta numa pequena esperança. Achava que Ana poderia estar lhe fazendo uma surpresa, escondida em algum cômodo. Não que ela já tenha feito isso antes. Abriu a porta, pé-ante-pé. Ninguém. Água no entorno da pia e a tampa do vaso sanitário levantada. Normalmente a tampa do vaso ficava fechada, ela não gostava daquilo. Era de uma organização ímpar. Ele, o oposto. 

Olhou-se no espelho. Barba, cabelos, dentes. Uma multidão de imperfeições e desencontros biológicos à sua frente. Ficou se olhando por alguns segundos. Encheu as mãos de água fria e jogou nos olhos. Só nos olhos, pois acreditava que só os olhos eram necessários para se acordar. Ignorou o resto do rosto. Em seguida, olhou, um tanto atordoado, para um pequeno copo onde ficavam as escovas de dente. Ali, só uma escova: azul. A outra, laranja, desaparecida. Abriu a gaveta embaixo da pia. Toalhas. Abriu o blindex. Um xampú e um sabonete. Normalmente eram vários. E condicionador. Escovou os dentes com uma lentidão incomum, tentando racionalizar a falta. Era a instituicionalização da ausência tomando forma.

Foi até a cozinha. Normalmente, sentia o cheiro do café ainda no corredor. Ela, diurna e ativa, costumava acordar mais cedo e preparar o café. Ele, criatura da noite, demorava a se acostumar com hábitos tão primitivos; ela, contudo, o havia feito perceber vida antes das 18h. Naquele dia não havia café, torradas, frutas, nada. A cozinha estava impecável, mármore, fórmica branca, pia de metal. Na geladeira, nenhum recado. A foto que costumava ficar ali, dos dois, sorridentes, em viagem, só costumava. E não parecia que foi arrancada. Situava-se sob um ímã de morango, gordo e redondo. O ímã continuava ali, instigante, vermelho. A foto, não. 

Abriu o armário. A geladeira. A gaveta dos talheres. Abriu tudo com certa calma irritante. Procurava algo que o reconfortasse. Achou café, pão e garfos. Fez o café e uma torrada. Dirigiu-se à sala, com uma dor que começava a questionar a até então dominante calma. Era uma sensação falsa, sonsa. Ele lembrava da analista, que dizia que fazer aquilo era costume de quem sentia uma raiva incomensurável das coisas. Talvez. Olhou em volta na sala, o jornal do dia anterior estendido sobre o sofá, aberto em alguma seção igualmente desinteressante e insípida. Olhou a data: quarta-feira. Normalmente comprava o jornal junto com Ana, depois de tomarem o café preto de todos os dias.

Ao fim do café, pendurado no parapeito da janela, uma dor esfuziante começava a tomar conta de seu peito. O vazio daquele cômodo era suportável. O do incômodo, não. Fazia um calor sufocante e, mesmo assim, havia pouca luz. Tentava rememorar o que poderia haver ocorrido. Na sua cabeça, pouco se passava. A sensação de luto era a maior de todas, parecia-lhe impossível lidar. Um eterno enterro. Fechou os olhos com força. Ficou assim alguns segundos. Um minuto, talvez. Abriu. A sala continuava idêntica. Ligou para Ana. Sem resposta. Tornou a ligar. Ausência. 

Mais agitado, retornou ao quarto. Abriu o armário, viu muitos vestidos. Alguns ainda tinham o seu cheiro. Muitos coloridos. Outros não. Abraçou os que não tinham o cheiro. Lembravam menos ainda a mulher. Apertou-os com tanta força contra si que chorou. Tentou, de novo, rememorar o possível motivo do desaparecimento. Não conseguia conceber. 

Voltou para a sala. Sentou-se em uma cadeira elevada – daquelas de bar – e ficou olhando pela janela, sentindo o abafado, como se esperasse poder ser levado da mesma forma que ela. Ficou assim vários momentos, um tanto imóvel, um luto de perda da outra metade da cama.

Em meio ao transe, um barulho de fechadura. Pensou ser parte do delírio e continou de olhos fechados, como que ainda sonâmbulo. Doutro lado da porta, Ana, com o jornal e flores. 

- Oi, meu amor.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Para ver a banda passar



A banda tocava, um tanto enfurecida, sob luzes faiscantes e quentes, os braços da plateia, que se jogava de um lado para o outro, em um balanço de mar, pés soltos na areia do tablado, olhos vidrados naquela adulação sonora. Em meio àquela multidão hipnotizada, havia um olhar distinto. Um olhar que, curioso, não olhava o palco, não mirava a mesma direção das milhares de retinas vizinhas. Focava-se, ao contrário, em um outro olhar. Os olhos um tanto esverdeados daquele rosto visavam outros, castanhos, sorridentes, pequenos, paralisados. A mulher ignorava solenemente o que se passava ao redor e se fixava, em meio à massa humana, àqueles olhos, barba, dentes, nariz. Enquanto o mundo se movia, pés saltitavam e dancinhas proliferavam, os olhos dela tinham apenas um destino. Um abrigo reconfortante, quente, cálido. O interessante é que era ela quem gostava da música. Estava mais do que claro que ela que o trouxe para o show. Não fosse ela, poder-se-ia apostar o quanto fosse, ele ali não estaria. Certeza. Os sorrisos dele não eram o clarão de felicidade de quem vivencia uma experiência auditiva. Era outro sentimento. Ne sais quoi. À medida que as músicas iam sendo trabalhadas e construídas em meio a uma aura densa, etérea, sonhadora, ela pairava no ar olhando para ele. Estava de costas para o palco. O tempo inteiro. Ela cantava todas as músicas, mesmo as instrumentais, mas ignorava os músicos. Eles eram parte de um espetáculo privado, uma trilha sonora de fundo para um abraço que ela procurava – e causava. Em dado momento, a coisa beirou o ridículo. Chegou ao cúmulo de dançarem de mãos dadas, como que numa valsa, em um baile de guitarras e xilofones. Aquilo irritou um bocado de gente. Deu pra perceber. O casal dançava de um lado para o outro, cercado de olhos e ouvidos atentos, numa comunhão tão íntima que tudo levava a crer que eram os outros os intrusos. Estavam atrapalhando uma das mais doces entregas, um bailar esquisito e desconcertado. Depois, ela (sempre ela!), passou a fingir que o ignorava – isso olhando para ele – só para ter certeza que ele ficaria perturbado com aquilo. Ele fingia ficar. Depois dos segundos de bobeira, os dois voltavam a se abraçar. O mundo acabava nos metros quadrados no entorno. Não era importante. A música funcionava somente como pano de fundo de um encontro há tanto esperado. Ou não: o amor é negócio tão imprevisível que talvez eles tenham se visto há vinte minutos. O fato é que aquilo continuou durante toda a apresentação. Contaram-se os minutos em que ela olhou para frente. Uns dez? Talvez menos. O show dela era outro. Ele, coitado, não fazia questão de estar ali. Já que estava – por causa dela, claro – tentava fazê-la sentir-se única. O rapaz era esforçado, reconhece-se. Abraçava, rodopiava, metia as mãos naqueles quadris finos, mexia os cabelos pretos ondulados, dizia coisas no ouvido... Tinha uma mania incomum de segurar as orelhas dela. O fato é que ele, ao contrário dela, não entendia ou conhecia quem tocava. Um minuto de observação e isso ficava mais do que claro. O modo como olhava para o palco era inseguro, aquela insegurança típica de quem está vendo algo novo. Mas ele gostava do que via. Gostava por que ela estava feliz. Mas ignorava a banda. Ponto. Isso não tem discussão. Ele poderia estar em qualquer lugar que a reação seria a mesma. O irônico é que era ele, que não conhecia aquele turbilhão de instrumentos marcianos, que estava voltado para o palco. O amor é injusto. Ela, certamente a culpada pela ida, trocava um show pelo outro. Ou ficava pela metade em cada um. A verdade é que parecia não se importar com o que “perdia”. O outro lado era mais significativo.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Crônica de um amor perpétuo



Nunca esqueci o dia em que, menino, vi, pela primeira vez, de perto, um caboclo de lança. Foi no Centro do Recife, próximo ao mercado de São José. Vestida com a “gola”, a indumentária feita de lantejoulas coloridas cuidadosamente instaladas como uma armadura, aquela entidade amarela, azul e vermelha segurava uma enorme lança de madeira com firmeza digna de fé. Na boca, a flor característica e os lábios cerrados em uma seriedade assustadora. Vi a cena com curiosidade e certo receio. Meu pai tentou me explicar o que se passava. Lembro que não conseguiu. Ninguém conseguiria. Era fevereiro, nas semanas anteriores à festa mais bonita e sincera de todas. 

Com o passar dos anos, de uma infeliz rejeição e incompreensão, minha relação com o carnaval tornou-se necessária. A primeira vez que subi as ladeiras de Olinda, em um sábado de Galo da Madrugada, e vi a força das infinitas cores do sítio histórico, as percepções mudaram definitivamente. As incontáveis orquestras de frevo, os caboclinhos, cirandas e troças acompanhando o cortejo de fantasias e mascarados, os incontáveis sorrisos e abraços de encontro e reencontro, a identificação de realmente pertencer àquele lugar organizado em uma desordem absoluta. Os braços para o alto, como antenas apontando para o céu, acompanhados de pés que levitam, na catarse de “Vassourinhas” e dos confetes e serpentinas do Elefante.

Os históricos casarões portugueses sendo tomados pela turba mais alucinada, a cordialidade de Holanda personificada naqueles rostos queimados do sol do trópico. Não mais hostil, mas acolhedor, um abraço quente e denso na interminável festa que, se dura da sexta-feira à acachapante quarta-feira de cinzas, permanece no peito durante o decurso do ano. Baco, sacana, inegável dizer, foi muito feliz. Nos enfeitiçou, de forma perpétua: nas alfaias, trombones, estandartes, clarins e personas. Essas, se durante as quatro estações vestimos dissimuladamente, todos os dias, preferimos, quando estamos na mais etérea e singular massa humana, escancará-las, despir-nos das máscaras do cotidiano para vestirmos outras, menos embrutecidas e dissimuladas. 

O carnaval, como a fé daquele caboclo, é sincero. Ali, a nossa felicidade é a maior de todas. A tristeza também. A tristeza somente como saudade, exílio, porque não há espaço para a dor em meio à celebração. Os deuses, sábios entendedores da alma humana, não permitiriam. Amar o carnaval é amar a própria história; não se trata de uma simples “festa”, mas, ao contrário, da identificação com a origem. É um relacionamento imaterial, intenso, perpétuo, com a mais bela e fiel das mulheres. Porque quem gosta de carnaval gosta para sempre. É a festa pagã que mais representa o sonho católico: “sejam felizes para sempre”. E serão. 

De pequeno, no mercado de São José, à altura de barbas escorrendo pelo rosto, como agora, nunca houve brigas, separações, desentendimentos. Os distanciamentos, é verdade, doem. A saudade é parte dessa equação eterna, que começou ali, na vista daquela figura mística, parte do maracatu rural, envolta em um mistério ainda sem solução. A colorida imagem daquele caboclo de lança, tenho a impressão, acompanha minhas andanças nos dias de Momo até hoje. É o inexplicável espírito do carnaval.